sábado, 26 de março de 2011

Uma flauta e o zen


UMA FLAUTA E O ZEN
Vagarosamente
o horizonte se revela.
Dissipa-se a névoa.

A tarde já ia em seu fim. Os flocos de neve começavam a cair com uma intensidade maior, cobrindo todo o cume do monte Hiei. No templo Enriaku-ji, localizado um pouco abaixo, não era diferente. Os monges já haviam se recolhido, e o silêncio era quebrado apenas pelo ranger dos galhos das árvores balançando com o vento frio que começava a soprar. Além desse, o único movimento que se podia perceber no ambiente era a fumaça elevando-se da cozinha. O pátio localizado entre o templo e a floresta encontrava-se vazio, e, no chão, pegadas recentes marcavam a neve, vindas da única trilha que ligava o templo ao mundo exterior.
Yumi entrou assim que acabou de acender os lampiões do pátio. Parou no corredor que levava à cozinha, e ficou por um longo tempo admirando pela janela a placidez da cena lá fora. Cruzou os braços, colocou as mãos debaixo das axilas num gesto de satisfação por encontrar-se protegida e aquecida, e por sentir o cheiro bom da lenha e o crepitar do fogo na lareira. Ficou observando o pátio na penumbra, até que teve a impressão de ter visto alguém nos degraus. Aguçou o olhar e constatou que não estava enganada: em um dos cantos havia um jovem sentado. Intrigada, concentrou-se para tentar descobrir quem era; no entanto, a pouca luz do ambiente e a neve caindo dificultavam o reconhecimento. Mesmo nestas condições, percebeu que as roupas dele não eram adequadas à temperatura do lado de fora. Devia ser um peregrino recém-chegado, os monges que lá habitavam não se arriscariam em passeios nesta época do ano com roupas tão leves. Como estava acostumada a fazer quando chegavam viajantes ao templo, Yumi apressou-se para receber o rapaz. Devia estar com frio e cansado da extenuante viagem pela trilha íngreme, e ansiando por um prato de comida quente.
Sendo aquele templo um seguidor da linhagem Rinzai, a preferida entre os samurais, era comum aparecerem por ali guerreiros em busca de iluminação espiritual. Por isso não se assustou quando percebeu que o jovem trazia nas costas uma espada de madeira. Caminhou na direção dele parando um passo à sua frente. O rapaz continuou imóvel, com o olhar compenetrado em algum ponto além do horizonte. Mas apesar de estar de olhos abertos, a impressão era a de que o horizonte que ele contemplava estava dentro de si mesmo. Yumi ainda não tinha como saber, mas aquele olhar ficaria gravado em sua memória para sempre.
Timidamente, fez uma reverência e estendeu-lhe o braço, convidando-o a acompanhá-la; e então percebeu uma grande mancha vermelha na neve ao redor dos pés do jovem rounin. Ele já devia estar ali há algum tempo, pois o sangue no chão encontrava-se congelado, os lábios estavam roxos, e os cabelos escondidos debaixo de uma camada de neve acumulada. Yumi continuou com o braço esticado por algum tempo, até que finalmente percebeu uma reação; o jovem olhara na direção dela, e, num gesto rápido, levantou-se e fez uma reverência profunda, para, em seguida, cair desfalecido no chão.

***

O monge Kakua parou para descansar. Já estava caminhando há horas, e os pés começavam-lhe a acusar o esforço. Afastou-se um pouco da trilha e sentou-se recostado a uma pedra onde o sol ainda batia. Retirou uma flauta das dobras do quimono e começou a tocar. Uma melodia triste invadiu a área, quebrando o silêncio da tarde precocemente fria que caía na região do monte Hiei.

Dias atrás, Kakua encontrava-se meditando no templo quando soube da chegada de um mensageiro do imperador. Este,
Nos dias que se seguiram à partida do mensageiro, Kakua pôs-se a caminhar pelo bosque ao redor do templo, sempre acompanhado da flauta. Levava horas contemplando uma flor, outras vezes parecia extasiar-se com o canto de um pássaro.
Os outros monges e os aprendizes não conseguiam entender que espécie de preparativos eram aqueles. Apesar disso, permaneciam calados, em uma distante admiração. E assim os dias foram passando, até que em uma manhã deram pela falta de Kakua. Partira cedo, sem avisar, e sem preparar uma sacola com roupas e mantimentos. Ganhara a estrada apenas com seu
Enquanto tocava flauta e o conforto provocado pelos últimos raios de sol diminuía, Kakua pensava sobre o rumo que tomaria na bifurcação que se abria à sua frente. Foi interrompido pelo som de vozes: pela estrada, vinham caminhando um velho e uma jovem. Ele na casa de seus sessenta anos, caminhando com uma certa dificuldade, utilizando um bastão de madeira como apoio; ela, uma jovem que ainda não completara quinze. Ambos pareciam cansados, e o velho alertava para a necessidade de procurarem um abrigo para pernoitar e se protegerem do frio. Kakua pensou que seria uma boa oportunidade para ter companhia, e resolveu ir ter com eles. Guardou a flauta e caminhou de volta até a trilha.

- O inverno chegou cedo mesmo este ano, não foi?, disse Kakua após uma longa reverência.
- Sim, chegou, respondeu o velho tranqüilamente, também fazendo uma reverência. Estamos procurando abrigo para esta noite. Conheces algum por aqui?
- Um pouco mais adiante existe uma cabana para os viajantes. Eu estava mesmo pensando em passar a noite lá. Posso acompanhá-los?
- Sim, ter a companhia de um monge por algum tempo será interessante. Eu me chamo Kubota Hisashi, e esta jovem é minha neta, Sayako.
- E o que fazem na estrada nesta época do ano? Estão indo para a capital?
- Sim, estamos; Sayako irá estudar o Shô, a arte da caligrafia. É uma tradição em nossa família. Como hoje em dia o melhor mestre, Moka, vive na capital, estamos indo para lá pedir-lhe que a aceite como discípula.
Kakua assentiu com um gesto, como se concordasse com a opinião do velho a respeito do mestre Moka. Seus olhos se perderam, e por um momento parecia estar sendo assaltado por velhas lembranças. Com um sorriso quase imperceptível, deu meia volta e seguiu na direção da cabana. O velho e a neta foram logo atrás.
Caminharam por pouco mais de uma hora, quando finalmente avistaram a cabana. Era um pequeno abrigo de madeira, onde
Apesar de muito cansado, Hisashi providenciou uns gravetos para acender uma fogueira. Os três reuniram-se ao redor dela, e enquanto preparavam o chá, Kakua retirou a flauta das dobras do quimono e pôs-se a tocar uma alegre canção. Tanto Hisashi como Sayako pareceram gostar, pois abriram largos sorrisos. Ficaram ouvindo extasiados, e, ao fim da música, se curvaram, agradecendo. Kakua parecia radiante também, e por isso resolveu propor-lhes um kôan.
- Mas o que vem a ser um kôan, mestre Kakua?
- Uma espécie de jogo. Vou dar-lhes algo para pensarem a respeito, e talvez os caminhos por onde vossa
Sayako olhou para o avô com os olhos mais carentes que podia ter; este percebeu a curiosidade da neta, e assentiu com a cabeça para que Kakua continuasse. Estavam ambos ansiando por aquela novidade, embora não quisessem demonstrar.
- Qual o som de uma só mão batendo palmas?, disse Kakua, enquanto se ajeitava na esteira estendida no chão. Hisashi e Sayako entreolharam-se, atônitos.

****
Inverno rigoroso.
O rubor aquece a face
da minha amada.


Yumi descansava sentada no tatami quando ouviu uns resmungos vindos da direção de onde estava o jovem rounin ferido. Levantou-se rapidamente e foi até ele.

- Ah, finalmente acordou!, disse Yumi. Está se sentindo melhor?
- Mestre Kakua... preciso vê-lo!, respondeu o rounin, sem disfarçar a ansiedade que tomava conta de si.
- Temo que tenha chegado tarde. Kakua partiu no final do outono para a capital.
- Preciso... vê-lo!, repetiu, ao mesmo tempo em que tentava se levantar e desistia com uma expressão de dor.
- Você ainda não está em condições de ir embora; nos últimos três dias teve convulsões e febre alta. O corte em sua perna foi profundo, perdeu muito sangue. Vai ter que repousar por um bom tempo ainda.

Yumi levantou-se e saiu do aposento onde instalara o rapaz. Voltou logo em seguida trazendo uma bandeja com chá quente e alguns bolinhos. Ajoelhou-se ao seu lado e depositou a bandeja no chão com cuidado.

- Coma, vai lhe fazer bem.

Neste momento Yumi fez menção de se levantar, porém foi contida: o rapaz segurou-lhe a mão e olhou-a nos olhos.

- Obrigado... Acho que ainda não nos apresentamos, não é?

Yumi não respondeu nada. Apenas abaixou os olhos, desviando-os daquele olhar que, por algum motivo, tanto a incomodava.

- Eu me chamo Nishimura Iori. E você?
- Kishida Yumi.
- Obrigado por me acolher.
  pai não podia aceitar o rumo que o filho estava tomando, e decidiu procurar alguém para orientá-lo. Foi até o templo da região, e soube que lá havia um monge de partida para a China, onde estudaria novas disciplinas. Seu nome era Kakua. Conversou com ele, e pediu que aconselhasse o jovem Iori antes de viajar. proposta que tenho para lhes dar: eu levarei este rapaz comigo, e o educarei. Isto é, se seus pais permitirem.
Yumi livrou sua mão, levantou-se e saiu apressada. Já no final do corredor não agüentou e começou a correr. Sentia o rosto queimar, e cobriu as bochechas com as mãos para que os monges não reparassem no quanto deviam estar vermelhas. Foi para seus aposentos, e não saiu de lá até a manhã seguinte.
Iori acordou bem disposto. As dores estavam mais suportáveis, e sentia-se mais forte após uma noite bem dormida e da refeição quente levada para ele por Yumi. Onde estaria ela agora? Enquanto pensava se a tinha assustado, um noviço apareceu no quarto.

- Está um dia claro e frio, Iori-sama. Este inverno será rigoroso, não acha?
- Sim.
- Eu soube que você está à procura de Mestre Kakua. Infelizmente, ele teve que partir para o Palácio Imperial, o imperador quer interrogá-lo a respeito de seus estudos no período em que esteve na China. Bom, acho melhor deixá-lo descansar mais. Daqui a pouco Yumi trará chá. Com licença.

Iori ficou pensando no que o tinha trazido até aquele templo: a necessidade de conversar com Kakua. Alguns anos atrás, era ainda um adolescente vivendo no campo e pensando sempre em como fazer o pai se orgulhar dele. O avô tinha sido um respeitado samurai, todavia o pai não pôde seguir-lhe os passos. Os tempos estavam se tornando difíceis, encontrar um daimyo que pagasse um estipêndio era coisa rara para jovens espadachins. Ainda mais depois que conhecera sua mãe e esta engravidara. Precisava sustentar a nova família, e não poderia ficar muito tempo sem um ofício. Resolveu ir para o campo, e decidiu que não tinha mais honra para usar o nome paterno. Seus descendentes só poderiam voltar a usar o nome da família Nishimura quando voltassem a seguir o bushido, o caminho da espada. Enquanto fossem camponeses, atenderiam por Tosaka.
Por isso, enquanto esteve vivendo no campo, Iori acostumou-se a ser chamado de Iori Tosaka. No entanto a vontade de seguir os passos do avô samurai, e de assim ser um motivo de orgulho para seu próprio pai começou a falar mais alto quando ganhou a primeira espada de madeira. Andava de um lado para o outro com a espada às costas, disposto a desafiar qualquer um. Só que esta disposição começou a se tornar uma fonte de encrencas. Por várias vezes envolveu-se em brigas, e teve seu nome ligado com uma turma de jovens desajustados e marginalizados.
O
Justamente naquela semana houve um acontecimento mais grave. Iori fora apanhado numa séria briga que havia resultado no ferimento de dois rapazes. A revolta da população com os jovens baderneiros estava chegando ao limite, e resolveram amarrar Iori num local público do pequeno povoado para servir de exemplo e de punição. O desespero de sua família chegou ao auge, e então Kakua resolveu agir. Dirigiu-se até o local onde o jovem havia sido amarrado, e encontrou uma pequena multidão furiosa. O pai do rapaz defendia-o empunhando uma espada, não deixando ninguém se aproximar.

- Mas o que este jovem fez de tão grave para merecer esta punição toda? - gritou Kakua, silenciando a turba. Não vêem que ele precisa de orientação ao invés de punição?

Algumas vozes levantaram-se nervosas, mas aos poucos foram se acalmando, até restar apenas um longo silêncio.

- Prestem atenção à
  novo discípulo. Conversavam pouco, pois o jovem não se mostrava muito disposto a falar. De início, sentiu ódio daquele monge que o havia tirado da família, no entanto com o passar dos dias começou a se sentir confortável com a presença de Kakua, mesmo apesar de todo o silêncio. mais responsabilidade para ver como lidará com ela.
Aos poucos, alguns murmúrios de aprovação ao monge começaram a ser ouvidos. Restava saber o que o pai de Iori diria. Neste momento, ele levantou a espada, pedindo a palavra.

- Não me resta muita escolha. Entrego o destino de meu filho ao monge Kakua. Que ele consiga dar um rumo à vida dele que eu não consegui. E que volte um dia orgulhoso de seus feitos e podendo andar de cabeça erguida entre nós.
Dito isso, pôde-se perceber a satisfação dos presentes com a solução que se apresentava. O único que não parecia nada feliz com a novidade era o próprio Iori. Não tinha coragem de contestar a decisão do pai, ainda mais publicamente. Porém sua expressão não deixava dúvidas. Lágrimas rolaram-lhe do rosto no momento em que viu o pai indo embora sem olhar para trás, dispersando-se no meio da multidão de desconhecidos.
Kakua imediatamente pegou a estrada acompanhado do
Um dia, enquanto visitavam um templo, Kakua decidiu que aquele era um bom local para deixar Iori. Falou-lhe que precisava ir à China estudar uma nova disciplina por alguns anos, e seria melhor que Iori continuasse no Japão. Chamou o monge mais graduado do templo e expôs-lhe a situação. Combinaram que Iori não sairia dos limites do mosteiro enquanto não tivesse lido todos os livros sobre poesia, história, arte e religião que encontrasse lá dentro. Esta estadia seria a primeira etapa de sua formação, e caso ele resolvesse escolher qualquer outro rumo na vida, a base já estaria pronta. Combinaram isso, e Kakua despediu-se do jovem Iori dizendo que muito provavelmente seus caminhos ainda se cruzariam novamente, mas em outras circunstâncias. Iori novamente odiou o monge, por achar que estava traindo a palavra que dera a seu pai, e por estar deixando-o dentro de um templo, enquanto ele gostaria de entrar para uma academia de esgrima e de treinar para se tornar um samurai e resgatar o nome da família.
Um dia, após três anos de estudos no templo, Iori foi chamado à presença do monge com quem Kakua havia combinado os termos de sua reclusão. Há muito esta reclusão deixara de ser indesejada por parte de Iori, que ultimamente vinha sentindo um prazer imenso em estar ali, estudando tantas coisas interessantes nos livros. Seu espírito finalmente parecia estar se acalmando, criando novas demandas que ele próprio jamais imaginara. O monge, porém, trouxe uma notícia perturbadora.

- Iori, recebi a notícia de que seu pai não está bem de saúde. Portanto, a partir de agora considere-se livre para fazer o que quiser. Se preferir continuar no templo estudando, será muito bem recebido como foi até hoje, mas se quiser (quiser) ir encontrar-se com seu pai e dar-lhe algum conforto, não o impedirei. Acho que o propósito de Kakua já foi cumprido, sua estadia entre nós me parece que foi muito bem aproveitada. Está na hora de dar a você
  pai remoía-se de culpa por tê-lo entregue ao monge. No entanto, a sensação de todos era que a partir de agora tudo ficaria bem, e com Iori podendo ajudar nas pesadas tarefas rurais, a saúde do pai seria mais rapidamente restabelecida. templo pedindo abrigo e nunca se sentira assim antes. Mais uma vez, a reação dela foi levar as mãos ao rosto e sair depressa de perto daquele jovem sem emitir mais uma palavra. conseguido com tanta facilidade. ali era muito aguardada. Por sorte, o imperador se encontrava no Palácio, e poderia recebê-lo na manhã seguinte, depois do desjejum, quando poderiam conversar tranqüilamente. Kakua agradeceu a acolhida, e mostrou-se satisfeito com tais determinações, pois assim teria tempo de livrar-se da poeira da estrada e descansar um pouco antes do encontro. ainda estava em algum lugar do templo lá atrás. Sabia o porquê disso, no entanto preferia não pensar muito a esse respeito, e talvez um dia o destino o colocasse de novo nesta situação. Mas no momento, o melhor era concentrar-se em sua tarefa e, através dela, tirar as lições mais proveitosas para seguir seu próprio caminho. Deu um suspiro de resignação, balançou os ombros, e seguiu em frente.
Iori não teve dúvidas. Aprontou imediatamente uma pequena sacola com alguns mantimentos, pegou uma velha espada de madeira no templo e partiu de volta à terra natal. Após tanto tempo, veria de novo a família... Será que o receberiam bem?
Ao chegar em casa foi recebido com muita alegria. Todos ansiavam por seu retorno há muito tempo, e o
Tudo transcorria normalmente: Iori mostrava que aprendera a controlar seu espírito mais selvagem trabalhando nas tarefas de casa e freqüentando o templo sempre que podia. Mostrava perante a comunidade um autocontrole insuspeito para quem o conhecera adolescente. Além disso, a saúde do pai dava sensíveis sinais de melhora. Até que um dia um mensageiro trouxe uma correspondência para a família Tosaka. Viera da China, e era assinada por Kakua. Este dizia que retornaria em breve ao Japão, e provavelmente se instalaria por uns tempos no templo Enriaku-ji, localizado no monte Hiei. Gostaria de rever o jovem Iori.
A esta altura, o pai de Iori já havia se recuperado. Então, disse-lhe que era necessário que fosse visitar Kakua para transmitir-lhe os agradecimentos da família por ter interferido de forma tão positiva em sua educação. Iori concordou com o pai, e mais uma vez começou a preparar-se para a longa viagem que teria pela frente. Estavam no final do verão, e seria melhor programar-se para chegar lá antes do inverno.
 
 
- Você está se sentindo bem, Iori-sama?, perguntou Yumi, agachada bem à frente do rosto de Iori e franzindo a testa em evidente sinal de preocupação.
- Ah, desculpe-me; não a tinha visto.
- Já o havia chamado duas vezes antes desta. Trouxe-lhe um chá quente. Tome, antes que esfrie.

Mais uma vez entreolharam-se. Um longo silêncio aconteceu. Yumi sentiu a face ruborizar, as bochechas pegarem fogo. Não entendia muito bem por quê isto estava acontecendo com ela, já que estava acostumada a cuidar de viajantes que chegavam ao
Como o inverno estava mais rigoroso naquele ano, Iori não pôde partir rapidamente. E apesar de ansiar encontrar-se de novo com mestre Kakua, sentia prazer em permanecer ali. Desde que passara por aquele longo período estudando no templo enquanto Kakua estava na China, sentia-se bem neles; e agora essa sensação era ainda maior, amplificada pela presença tímida de Yumi. O cuidado que tinha com ele, Iori, as bochechas que ruborizavam de um instante para o outro, e os silêncios quando se olhavam olho no olho. Silêncios significativos, densos. Tudo isso o convencia a ficar um pouco mais toda vez que pensava em ir embora e olhava pela janela apenas para certificar-se que uma nova nevasca estava se aproximando.
 
***

Da estrada já podiam ver a capital ao longe. O aglomerado de construções novas, o tráfego maior de pessoas, tudo indicava que a viagem estava chegando ao fim. Hisashi e Sayako estavam tristes por terem que se separar de Kakua, o estranho monge que conheceram durante a viagem e que passara a os acompanhar e divertir com a flauta e perguntas aparentemente sem sentido.
Ao entrarem na cidade, resolveram parar numa estalagem para, enfim, comer uma refeição completa. Enquanto esperavam os bolinhos de arroz e o cozido de peixe e legumes que o senhor lhes garantira ser o melhor da cidade, Hisashi foi procurar informações sobre o mestre de caligrafia. Voltou rapidamente, surpreso e satisfeito por tê-las
Após a refeição, devorada com enorme apetite pelos três e dividida com o simpático e magro vira-latas que ficara rondando a mesa, Kakua levantou-se e disse que a partir dali se separariam. Suas jornadas tomariam rumos diferentes, mas que, em breve, poderiam tornar a se encontrar caso outros assuntos não o atrasassem mais do que o necessário. Pediu-lhes que enviassem as mais efusivas saudações ao mestre Moka, e que talvez eles tornassem a se ver em breve. Ao terminar a última frase, fez uma longa reverência, virou-se, e foi andando para fora do estabelecimento sem olhar para trás.
Os anos passados em meditação dentro dos templos e em contato com a natureza faziam Kakua sentir-se estranho naquele ambiente tão urbano. A velocidade das pessoas era exagerada, pareciam não se dar conta de que estavam perdendo um tempo precioso de suas vidas com preocupações inúteis. Todos pareciam olhar para dentro de si mesmos, cegos ao ambiente e incapazes de se deslumbrar com o espetáculo e a benção de simplesmente poderem respirar e sentirem-se vivos. Tudo isso fazia Kakua ansiar por cumprir a missão que viera realizar.
Queria solicitar logo a audiência ao imperador e poder ir embora dali. Talvez visitasse velhos amigos depois, se sobrasse tempo. Por isso, dirigiu-se diretamente ao palácio imperial, disposto a livrar-se daquilo o mais rapidamente possível.
Ao chegar ao palácio e se anunciar, foi recebido por um jovem assessor do imperador. Este parecia feliz em recebê-lo, e disse que presença dele
A manhã seguinte encontrou Kakua de pé. Fora providenciada uma farta refeição para o monge - que, no entanto, aceitara apenas a xícara de chá. Logo em seguida estava sendo guiado por um ansioso assessor imperial através dos salões do palácio, para o local onde o imperador o aguardava.
Enfim, o momento chegara. Além do imperador, outras pessoas aguardavam Kakua sem disfarçar a ansiedade em torno daquele encontro. Foram feitas as apresentações, e logo em seguida o imperador tomou a palavra para si:

- Mestre Kakua, as notícias de tua viagem pela China, onde foste estudar uma nova disciplina conhecida por Zen, chegaram até mim. Fui informado também que tu és o primeiro monge japonês que adquiriu tais ensinamentos. Portanto, a natureza de meu pedido para que viesses para esta audiência é falar-nos do que aprendeste nestes anos de estudo no exterior. Diz-nos, Mestre Kakua, o que vem a ser o Zen?

Neste momento, todos os olhos voltaram-se na direção de Kakua. Este deu um passo à frente, abriu um largo sorriso e fez uma longa reverência.
***

Realmente, o inverno fora rigoroso. Iori acabou ficando mais tempo no mosteiro do monte Hiei do que imaginara. Chegara lá no início da estação, e só agora, com a chegada da primavera, estava retornando à estrada para tentar encontrar o monge Kakua. Esperava ter notícias dele na capital, se fosse obrigado iria até mesmo ao palácio imperial para saber sobre o paradeiro do monge.
Ia caminhando com o olhar fixo adiante, a mente, todavia,
Após vários dias caminhando, chegara à cidade. A primeira providência foi procurar uma estalagem onde pudesse se recompor da viagem com um banho e uma refeição. Como era tarde, resolveu descansar à noite, para no dia seguinte ir ao Palácio procurar por Kakua. Com sorte, talvez ainda estivesse lá gozando da hospitalidade do imperador.
Ao chegar no palácio, apresentou-se e perguntou por Kakua. Sentiu uma ponta de esperança quando o levaram até um aposento e pediram que aguardasse. A ansiedade começou a tomar conta de si quando um assessor do imperador apareceu.

- Você é o jovem que procura por Kakua?
- Sim, sou Iori, da família Nishimura.
- Iori, nós também gostaríamos de saber do paradeiro dele. Esteve aqui no final do outono para uma audiência com o imperador com o objetivo de esclarecer detalhes a respeito da disciplina que estudara na China, o zen. Quando foi argüido, Kakua simplesmente fez uma reverência, retirou uma flauta das dobras do quimono, soprou uma única nota e retirou-se. Não o vimos mais depois disso.

Iori não sabia direito o que fazer. Ao sair do palácio, parou e olhou para os caminhos à sua frente. Para onde seguira Kakua? Não retornara para o templo do monte Hiei, é certo, pois ele próprio passara o inverno inteiro lá. Talvez tivesse tomado um novo rumo inesperado. Respirou fundo, e deu o primeiro passo. Nunca se sentira tão livre como naquele momento.


Já é primavera -
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã
Bashô


Cozido de nabos
e peixe recende à mesa.
Os olhos do cão rogam.



Folhagem de outono.
Quanto amarelo e vermelho
cabe numa tarde!


sara fazib
 
 
No monte, o templo
envolto em cobertor
de neve azulada.


 

terça-feira, 22 de março de 2011

Uma noite como essa

Esse é um conto curto que eu fiz em 99; é bastante autobiográfico.


Uma noite como essa
“Say goodbye on a night like this
If it's the last thing we ever do
You never looked as lost as this“
A night like this, The Cure
 
por Ricardo Herdy
A tempestade caindo lá fora, as goteiras aumentando e Tânia fazendo as malas. Disfarço as lágrimas, procuro em algum canto da memória onde se deu a virada. A TV ligada num programa qualquer, mas nenhuma imagem consegue captar minha atenção. Escuto alguma coisa sobre nevascas no Rio Grande do Sul, disparam associações de memória que me fazem sofrer ainda mais e minha angústia aumenta. Clima de despedida, fim de festa, sonhos e promessas esquecidos. Tinha que ser numa noite como essa, como o dia em que nos conhecemos num inverno em Caxias do Sul. Um dia como essa noite. A camisa do Flamengo para mostrar que era carioca, a camisa transparente e molhada por causa da chuva e um esbarrão. Sundae de chocolate espalhado pelo chão, risos sem graça, a conversa de sempre, sotaque cantado, sotaque chiado, tu és do Rio?
Um trovão estala e Tânia me procura com os olhos. Já não parece ter a certeza de que quer se despedir, mas eu nunca soube direito o que se passava dentro daquela cabecinha ruiva. Até vir para o Rio nunca me dera uma pista sequer do que planejava, em nenhuma das cartas que agora jazem esquecidas em alguma caixa dentro de algum armário inacessível. Ou como agora, quando simplesmente olha pela janela, e não se sente intimidada pelo temporal que desaba sobre a zona sul do Rio de Janeiro. Ir embora justo numa noite como essa; quem diria?
A segunda vez que nos vimos também chovia. Estava chegando o Natal, e o sentimentalismo próprio da época fez com que os telefonemas e cartas já não fossem suficientes. Comprei passagem de avião, aluguei carro e apareci no trabalho dela sem avisar. Ela nem acreditava, o que estás fazendo aqui, guri? Pediu permissão ao gerente para levar o “primo” em casa, já voltava logo, e saímos pela rua, mais uma vez tomando chuva. A boca molhada, os cabelos grudados no rosto, a camisa branca do uniforme transparente, os beijos e gemidos, promessas de amor, outros carinhos mais ousados e sabe-se lá onde mais molhada.
Difícil foi ir embora depois de uma noite em claro. Descia a serra para Porto Alegre num carro que eu não conhecia, numa estrada que eu não conhecia, com uma neblina forte, um sono galopante e um limpador de pára-brisas enguiçado. Resolvi parar então num posto vazio de beira de estrada ao lado de uma máquina de refrigerantes, o vigia dormindo lá longe. Catei umas moedas enquanto deitava o banco e arrumei como companhia para o restinho de madrugada uma lata de Pepsi. O vento batendo no rosto, nenhuma referência conhecida por perto, uma sensação de liberdade quase tangível. Nunca me senti tão livre assim antes. Só mesmo numa noite como aquela.
Como a noite em que chegou no Rio me pedindo ajuda para procurar emprego e moradia. Assim, de uma hora para outra. Nunca me fez uma pergunta ou me consultou sobre as dificuldades que poderia encontrar. E de repente aparece na rodoviária, sozinha, com uma mochila e esperanças. E meu telefone, anotado num pedaço de jornal molhado da chuva que caía e alagava as ruas próximas à rodoviária. Tânia chorava mais que as nuvens, o medo do desconhecido, do ambiente opressor e dos pivetes que seguiam-na. Resgatei-a a tempo, arrumei um quarto numa pensão em Botafogo e um emprego numa loja do shopping. O futuro se abria num largo sorriso e na frase decorada com sotaque: Posso ajudar?
Depois as dificuldades apareceram. Sentia-se só, não tinha dinheiro, queria voltar. Mas a lembrança dos dias de chuva, de Tânia molhada, imagens captadas na retina e eternizadas na memória, me fizeram interferir de novo. Aluguei um quarto maior e fui morar com ela. A rotina da semana era compensada pela felicidade das tardes de domingo enroscado entre as coxas brancas e macias, o perfume cítrico, o cheiro de mulher no cio, estômagos roncando e as omeletes e os miojos. Dias felizes, vividos numa época em que o futuro não importava, o importante era curtir cada momento a sós como se fosse o último, sem nunca planejar nada além dos amanhãs.
No entanto, a partir de um determinado momento que não sou capaz de precisar, a alegria da novidade de morar junto com quem se quer tanto assim começou a se transformar em alguma coisa mais domada. E percebia isso em Tânia também, o fogo de seu olhar diminuíra, a energia de suas atitudes também já não era a mesma. A promessa de não nos tornarmos um casal padronizado que vive o ponto alto de suas semanas nos domingos à tarde quando vai passear no shopping começou a perder força, e cada vez mais nos tornávamos previsíveis e comuns. Em alguns momentos percebíamos esse processo, e voltávamos a viver como antes. Como nas idas à Guaratiba e seus restaurantes “Tias Alguma Coisa”, contemplando a deslumbrante restinga enquanto desfrutávamos as delícias do rodízio de frutos do mar; e eu, alérgico a camarão deixando todos para ela, e ouvindo que não é alergia coisa nenhuma, é prova de amor mesmo. Ou como na primeira vez no Maracanã, a torcida de preto e vermelho, os gritos de guerra, ela rouca de tanto berrar, a alegria estampada em todas as nuances de seu rosto, e um charmoso riso sem graça quando vinha um coro menos publicável. Eu adorava aquilo, os cabelos rubros caídos em cima da camisa preta, a voz rouca e sensual, e eu provocando para que ela continuasse falando e gritando cada vez mais. Em momentos como esses eu a percebia próxima, decifrava seu olhar cúmplice e expressivo, e sabia como terminaríamos a noite. Noites inesquecíveis.
Tudo me passa agora pela cabeça enquanto ela arruma as malas e a chuva aumenta. O barulho dos pingos nos vidros das janelas começa a batucar forte, e sinto meu peito molhado por alguma coisa gelada. Abro os olhos, e por um longo instante não sei onde estou; descubro-me dentro do carro, a latinha de Pepsi acaba de virar em cima de mim. À minha frente, uma máquina de refrigerantes, o vigia do posto dormindo lá longe, e uma estrada que pode me levar de volta para o Rio de Janeiro, se eu descer, ou para os braços da gaúcha Tânia, se eu subir.
 

Inauguração!

Boa noite, senhores!
Para dar partida nesta empreitada, escolhi uma poesia (coisa que não me arrisco mais a fazer) ancestral, feita por um outro Ricardo anos atrás. Ei-la!

NOITES
Lembranças, memórias,
legado de uma vida solitária.
Atiradas ao vento do alto de uma roda gigante,
que gira, e gira, me lembrando das histórias
dos verões e cavaleiros andantes,
dos dragões e armaduras reluzentes.
Que ficam pra trás, em seus dias de glórias,
Maldito tempo que só anda para a frente.

Para trás, auges e tormentos,
primaveras e verões.
Vontade de ficar, de voltar,
mas a roda segue girando rumo ao outono inevitável.
Ficam para trás as esperanças e as frustrações,
irrealizações ambiciosas de desmedidas proporções.
E logo, nada mais restará
além do ladrar eterno dos cães
nas madrugadas insones e solitárias.

por Ricardo Herdy