"O fenômenu sempre acontecia du memo jeito. O tempo ia fechanu, as nuve escurecia, e até o vento arrumava um modo de se enfeitar: trazia folhas verdinhas, pétalas coloridas, brabuletas lutando pra avoar no rumo, tudo como se fosse uma dança maluca, que ora ficava rápida, ora parecia que fazia o tempo parar.
E então, as estranheza tinha início.
Começava lá pros lado do Brejo Moiado. As coisa ia mudando de cor, os sons ficava tudo escuro. Nhá Xicota se benzia, dizendo que era obra do Coisa-Ruim. Mas eu sempre pensei que tinha mais pinta de coisa dos anjo, pruque os bicho num sentia medo, não. Eles num fugia, ficava tudo parado, oiando como se tivesse encantado.
Os primeiros bocejos eram pequenininhos, mal dava pra perceber. Mas num instante virava um toró danado deles, de tamanhos e intensidades variadas. Quem tivesse por perto não conseguia parar de bocejar também: a chuva de bocejos atingia a região toda, e quanto mais caíam do céu, mas o povo abria as boca. Era um festival de gengivas e dentes se mostrando, e logo o povo não parava de rir e de se admirar do milagre: das nuve carregadas de sonos e sonhos, bocejos caíam, influenciando os vivente e colocando todos pra querer durmi e sonhar mais.
Mas as estranheza não cabava aí não: mal a chuva começava, e quem tinha perna pra correr ia em disparada pra prantação de mandioca do Coroné Gumercindo. Quem ia chegando ia ficanu quieto, e pedia silêncio pros que se ademoravam um pouco mais. E era ali, na prantação de mandioca, durante a chuva de bocejos, que outro milagre se dava: as vozes eram baixas e graves, e nas primeras vez, num dava pra entender o que diziam. Mas era só apurá os ovido, colocá as mão em concha em volta das oreia, que se ovia direitim, como se fosse pipoca estourando na panela ou os sapos do brejo numa noite quente: Catatau. Catatau. Catataaaaaaau...
Eu juro por tudo o que há de mais sagrado nessa vida: era os póprios aipim, ainda de baixo da terra, que gritavam 'Catatau'. O que eles queria eu nunca soube, nem nunca fiquei pra saber. Mas que era bonito e estranho, ah era..."
Herdy, Nicolino. "Armadilhas de caçar caqui: crônicas de uma terra e um tempo sem devaneios", in Séries Criativas, 1 Ed. Rio de Janeiro: RM Editora, 2010 p. 51