domingo, 3 de julho de 2011

The Big Bang Theory

Our whole universe was in a hot dense state,
Then nearly fourteen billion years ago expansion started. Wait...
The Earth began to cool,
The autotrophs began to drool,
Neanderthals developed tools,
We built a wall (we built the pyramids),
Math, science, history, unraveling the mysteries,
That all started with the big bang!

Pasadena, Califórnia.
A tarde fria e chuvosa aproximava-se de seu fim. As calçadas haviam sido recém limpas pelo SHUM - Sistema de Higienização Urbana Móvel, mas pequenas poças já começavam a aparecer para se tornarem obstáculos no caminho. Para a senhora de cabelos louros pintados elas não pareciam incomodar: vinha com o andar arrastado, o olhar perdido no horizonte, o pescoço curvado para frente. Acabava de sair de uma agência de financiamento instantâneo, onde deixara as últimas joias que ganhara de presente de seu terceiro marido – todos os três ligados de alguma forma com a indústria do cinema. O primeiro casamento fora com o produtor de uma série que lhe prometera um papel de destaque; no entanto, a série nem chegou a ir ao ar. Ainda na gravação do terceiro episódio o contrato foi rescindido, e seu marido, demitido. O casamento ainda durou mais três anos, mas tudo acabou num restaurante pequeno do centro quando o encontrou, por acaso, prometendo o papel de destaque em sua próxima série para uma garçonete loura e peituda que tinha acabado de chegar de Oklahoma. Qualquer semelhança com sua própria história era mera coincidência...
O segundo casamento foi com um ator. Conheceram-se numa audição para a escolha do elenco de um filme B, dirigido por um colombiano baixinho que usava boina e suspensórios e achava que sabia falar inglês. O bonitão moreno, alto e de olhos azuis, candidato ao papel principal, a convidou para um café, e desfilou seu repertório de figurações em produções “importantes”, sempre a ressaltar que sua chance estava chegando, era apenas questão de escolher o roteiro certo; além disso, seu agente o indicara para aquele papel, o que acabaria por lança-lo à fama, não havia dúvida. Não foram escolhidos, mas começaram a se encontrar com frequência, e, quando perceberam, já moravam juntos e compartilhavam a rotina de testes e audições – quase todas sem sucesso. Um dia, ao sair de um auditório onde acabara de ser recusada para um papel secundário sob a alegação de que “não tinha o sotaque certo”, pensou ter visto o tal diretor colombiano protegendo-se da chuva debaixo de uma marquise; começou a segui-lo um pouco de longe, esperando o momento certo para provocar um esbarrão e poder perguntar, assim como quem não quer nada, se ele não tinha nenhum projeto novo em vista. Foi quando seu companheiro surgiu na esquina em frente, meio que escondido por um sobretudo preto com um pequeno rasgo na manga esquerda que ela reconheceria a um quarteirão de distância. Estava visivelmente tenso, usando óculos escuros e boné, e sorriu meio sem graça quando o diretor foi em sua direção de braços abertos: cumprimentaram-se rapidamente com um beijo na boca, e entraram no pequeno hotel, em plena luz de um dia que acabava de se tornar cinzento.
O terceiro casamento aconteceu alguns anos depois: um executivo de um estúdio abordou-a na festa de lançamento de um filme no qual ela conseguira uma ponta; e, durante a conversa, ela acabou por citar uma máxima do Mestre Yoda – não sem se perguntar, internamente, por onde andaria aquele bando de lunáticos que moravam em frente ao seu antigo apartamento da época de solteira. O executivo adorou a citação nerd, não esperava isso de uma figurante loura; encantado, ofereceu-lhe carona, convites para jantar, festas de lançamento de filmes, e, finalmente, um anel. O casamento foi discreto, e a convivência, pacífica – porém fria e, a cada ano que se passava, mais distante. Não tiveram filhos, e, graças a um acordo pré-nupcial muito bem elaborado por seus advogados, o divórcio ocorreu sem maiores complicações – e sem maiores bens, claro.
A chuva começou a apertar, o que a obrigou a procurar um refúgio. Foi quando se deparou com a Cheesecake Factory, um antigo estabelecimento que havia sido seu primeiro emprego quando chegara de Omaha, Nebraska, algumas décadas atrás. Uma onda de nostalgia a invadiu, relembrando dos amigos que fizera naquela época, e que a vida tratara de afastar. Por onde andariam, o que teriam feito de suas vidas? Casaram, tiveram filhos? Estariam vivos, ainda? Talvez fosse melhor não saber.
Quando recobrou a consciência, percebeu que seus passos a guiaram para a porta do prédio em que vivera naquela época. Uma onda de arrepio percorreu sua coluna vertebral, e se pegou com medo de abrir aquela porta e reviver aqueles momentos doces e ingênuos de sua juventude há muito perdida. A saudade de seus amigos apertou-lhe o coração, e uma lágrima escapou, e mais uma, e mais outra, e outra... Foi interrompida por um entregador de comida tailandesa, que pediu-lhe licença, abriu a porta e sumiu escada acima. Ainda a enxugar as lágrimas, não pôde conter um sorriso ao perceber um aviso pregado na porta do elevador, que dizia “Fora de serviço”.
Procurou um lenço na bolsa e já ia embora, decidida a não prolongar mais aquele sentimento doído que a assaltara; foi quando percebeu o entregador voltando e resmungando alguma coisa sobre “aquele velho maluco”. Intrigada, resolveu voltar e entrar no prédio. Subiu os lances da escada até o terceiro andar, e parou em frente ao apartamento onde Sheldon e Leonard moraram, defronte ao dela própria. Lembrou também de Howard Wolowitz, o judeu tarado e inconveniente que namorara sua amiga Bernardette, e em Rajesh Koothrappali, o Raj, o indiano que não conseguia falar na presença de mulheres. Pensou em bater à porta e conhecer quem morava ali, mas achou melhor desistir, pois seria difícil explicar para o atual morador que ela procurava fantasmas de seu passado, seria tomada por uma velha louca e talvez chamassem a polícia. Deu uma olhada para a porta de seu antigo apartamento, soltou um suspiro e começou a descer as escadas de volta. Foi quando escutou uma porta se abrir, seguida por uma voz vagamente familiar:
- Penny? Por que demorou tanto?
***
O número de dimensões existentes no Universo
é dado pelo resultado da equação 1-[(D-2)/24]=0

Não havia dúvida: a figura envelhecida de Sheldon surgia à sua frente, enrolado num cobertor surrado, os pés enfiados dentro de pantufas com orelhas de coelho, e a mesma expressão de superioridade dos anos em que foram vizinhos e amigos – a despeito da postura levemente curvada. Sim, o mesmo Sheldon de outrora... Quem diria, voltar ao antigo prédio, e encontra-lo ali, abrindo a porta para ela e a convidando para entrar?! Parecia que voltara 50, 60 anos no tempo, que nada havia mudado desde então.
A mobília da sala mudara pouco: havia novidades tecnológicas, como a parede de monitor led que fazia às vezes de televisão, console de jogos e iluminação ambiente; a cozinha, com uma geladeira cuja porta também era um monitor; vários tablets espalhados pelas paredes, com fórmulas científicas e matemáticas, exatamente como as lousas que possuíam naqueles dias. Mas, de um modo geral, as coisas estavam praticamente nos lugares que ela própria já conhecia tão bem. Inclusive o sofá, com a almofada da esquerda amassada, enquanto as outras pareciam novas. Não resistiu e sentou-se exatamente ali, onde ela sabia que ele iria reclamar.
- Penny! Este é o meu lugar! Não é possível que tua senilidade esteja tão avançada para ter esquecido uma das constantes mais absolutas deste universo! Meu ponto (0,0,0,0), incluindo a coordenada da quarta dimensão, o tempo, que você já esqueceu de incluir uma vez! E isso só para simplificar, pois, de acordo com os avanços que consegui nos meus anos de estudo, estou a um passo de provar a existência de mais 22 dimensões além destas! Então, vou poder dizer que este lugar é o meu (0, 0, 0, 0, 0...
- Sheldon, pode parar de resmungar! Já saí do teu lugar, veja!
- ... 0, 0, 0, 0, 0...
- O que você fez nestes últimos anos? Ou seria mais adequado perguntar, o que você fez nas últimas décadas?
- ... 0, 0, 0, 0, 0, 0...
- Você vai mesmo ficar repetindo todos esses zeros aí? Acho que vou estar mais velha quando você acabar com essa besteira!
- ... 0, 0, 0, 0, 0, 0...
- Meu Deus, Sheldon! Você engasgou?
- ... 0, 0, 0, 0), embora seja arbitrário afirmar que a origem de todas estas dimensões seja o Zero, afinal, algumas delas possuem particularidades que ainda me escapam. E sim, quando eu terminei de enumerar todos os zeros das 26 dimensões do nosso universo, você estava mais velha do que quando comecei, pois nesta dimensão o tempo transcorre numa única direção, portanto, o que você afirmou é uma obviedade desnecessária e previamente conhecida até mesmo por seres com uma compreensão limitada do processo temporal. Que, por curiosidade, flui de maneira discreta, e não contínua como nossa percepção tenta nos fazer acreditar.
- Inacreditável! Todos esses anos, e você não mudou nada! Posso te dar um abraço? Estou tão emocionada... que... acho que quero... que vou... chuif, chuif...
- Não há motivo para contato corporal; no entanto, se isso a faz feliz, e, de alguma maneira preenche tua necessidade de cumprir com rituais sociais esperados, permitirei; mas antes preciso que você confirme algumas coisas.
- Confirmar o quê?
- Que neste tempo afastada você não contraiu nenhuma doença contagiosa, que este fluido escorrendo pelo seu nariz será devidamente limpo antes de se aproximar de mim e que... Ei!
- Deixe de bobagem, Sheldon! Um abraço é apenas a expressão da saudade e da emoção que estou sentindo neste momento!
- Você não devia ter feito isso antes das confirmações! Bom, suponho que agora só me resta torcer para não cair doente por causa disso! E... Penny?
- Sim?
- Pode me soltar agora?
- Ah, claro...
- Bom, enquanto você se serve da comida que acabou de chegar – o pato com tangerina é meu, e o outro é teu prato preferido, pode ficar com ele – vou responder à outra pergunta que ainda está sem resposta...
- Que pergunta?
- Por Spock, Penny! Você não me perguntou o que eu fiz nestas últimas décadas? Ou você está sofrendo do Mal de Alzheimer?
- Acho que ainda vou lamentar não ter manifestado este mal...
- Bom, depois que nos afastamos, eu fui trabalhar num projeto secreto do governo no Novo México. Fiquei muitos anos por lá, até que consegui uns resultados iniciais promissores com minhas experiências com teletransporte, e recebi um convite para voltar à Caltech, que incluía uma enorme bolsa para financiar as pesquisas e uma vaga como professor titular de Física Teórica. Consegui que algumas exigências minhas fossem aceitas e...
- Tenho até medo de perguntar quais as que não foram aceitas...
- Uma enorme besteira deles: pedi que colocassem uma maquete de trem que passasse por todo o laboratório, com macaquinhos como passageiros. Mas, como outra exigência, que era a de alugarem este exato apartamento para mim foi alcançada, decidi aceitar. Afinal, eu mesmo poderia construir a maquete com meus próprios recursos em outro local.
- E foi assim que você retornou... que legal! E quanto aos rapazes, você tem notícias deles?
- Se você se refere a Leonard, Raj e Howard, é claro que sim, embora eles não se qualifiquem mais como “rapazes” há um bom tempo. Eles formaram um grupo de música eletrônica chamado “O Nâzgul”, se batizaram como Gandalf, Merry e Pippin, e partiram em turnê pelo mundo.
- Mas o quê você está me dizendo!?
- Bazinga! Ar ar.
- Ufa, Sheldon... Por um momento eu pensei que...
- Para ser honesto, eu estava apenas introduzindo um pouco de humor nesta conversa que, nos próximos minutos, se tornará extremamente nostálgica. E, para quem reluta em aceitar e compreender o ciclo da vida, triste.
- Você pode parar com o suspense? O que houve com Raj, Howard e... Leonard?
- Pra começar, os rumos são diferentes, portanto será impossível construir um relato único que envolva o destino dos três. Ainda que os rumos de dois deles se entrelacem bastante.
- Você está falando de Raj e Howard, não é?
- Exatamente. Howard continuou trabalhando aqui na Caltech por um tempo, mas o Raj acabou tendo que voltar para a Índia para resolver assuntos familiares. Mantiveram contato, e chegaram a abrir uma empresa fornecedora de efeitos especiais para o cinema. É deles o lançamento do primeiro filme 100% holográfico, por exemplo, além dos efeitos olfativos. Muito criativos, embora eu próprio tenha tido essas ideias uns 10 anos antes.
- Oh, meu deus! Eles são os donos da KWEE?
- Obviamente; o que você acha que significa este anagrama tão sem criatividade? Simplesmente “Koothrapalli e Wolowitz Efeitos Especiais”
- Por que diabos eu nunca soube disso, meu deus?!
- Esta pergunta é retórica? Está cheia de referências divinas, eu não sou especialista nestes assuntos.
- Mas... onde eles estão hoje?
- Depois de conseguirem contratos vultosos com praticamente todos os estúdios de Hollywood, Howard viajou para a Índia para encontrar-se com Raj, e fizeram o mesmo sucesso em Bollywood. Ficaram bilionários, mudaram-se para o Brasil, onde rapidamente foram alçados à condição de “solteiros mais cobiçados”, e passaram a gastar a fortuna em festas em suas mansões e iates, sempre cercados das mais belas modelos. Uma bela mudança de paradigma.
- Estou sem palavras... aqueles dois... nerds? Cobiçados pelas modelos mais famosas do mundo? Eu nunca adivinharia isso! E pensar que eu os conheci quando eram praticamente dois virgens tímidos sem nenhuma possibilidade de conseguir uma garota!
- O mundo é um lugar surpreendente, não? O Princípio da Incerteza de Heisenberg já provava que...
- Não mude de assunto, Sheldon; me fale de Leonard. Por onde ele anda agora?
- Leonard faleceu há 15 anos. Não há o que falar sobre sua situação atual.
- Leonard morreu? COMO?
- Seu coração parou de bater, e seus sinais vitais sumiram, configurando assim aquilo que chamamos de morte. Ou fim da vida, dá no mesmo.
Penny levantou-se da poltrona, deu uma volta pela sala com o olhar perdido; parecia que a qualquer momento Leonard apareceria abrindo a porta e deixando a chave dentro do vaso que ficava em cima do criado-mudo junto à porta. Ou então viria pelo corredor, com os olhos espremidos, e diria, sem graça, “Ooooi, Penny”. Ela responderia, Sheldon ignoraria, Raj colocaria a mão em concha ao redor da orelha de Howard, que em seguida diria para todos o que Raj não conseguia dizer em sua presença sem estar bêbado. E se sentiria acolhida, confortada, invadida por um sentimento morno de aceitação, seria uma parte genuinamente integrante daquele grupo tão diferente de si própria. Quando se mudara para o apartamento em frente, jamais poderia imaginar que se tornaria tão importante para aqueles rapazes extremamente inteligentes, mas que não possuíam as habilidades sociais necessárias para se integrarem numa sociedade que valorizava atributos que, apesar de toda sua inteligência, jamais possuiriam. E o mais surpreendente de tudo foi que, mesmo com todas essas diferenças, ela fora aceita em seu círculo de uma maneira muito natural, e admirada por todos. Agora, olhando em retrospectiva, uma certeza começava a se formar com força em sua mente: aquele fora o período de sua vida em que se sentira mais amada e respeitada.
***
A viagem no tempo é teoricamente possível.
No entanto, o Homo Sapiens está mais longe dela
Do que um Neanderthal estava de chegar à Lua.

- Então... Leonard morreu... mas o que aconteceu com ele? Quero dizer, como foram seus últimos anos?
- Últimos anos? Seja mais precisa, Penny! Eu não posso ficar aqui descrevendo em detalhes seus últimos, vamos supor, cinco anos de vida, sem nos causar um enorme tédio e a provavelmente uma gangrena nos membros inferiores causada pela imobilidade a que estaríamos condenados!
- Ai, Sheldon... conte-me o que você quiser, mas me dê mais detalhes, por favor!
- Bom, para resumir, posso lhe dizer que, quando fui convidado para voltar à Caltech para desenvolver minha pesquisa em teletransporte, uma das condições que impus foi a contratação de Leonard como meu chefe de pesquisa prática. Eles entraram em contato com Leonard, que relutou muito em voltar, mas por fim acabou aceitando. E então nos vimos morando novamente juntos aqui, neste apartamento. Fizemos um novo e melhorado Acordo de Moradia, assinamos, e assim estávamos, finalmente, de volta aonde tudo começou.
- Exatamente como nos velhos tempos!
- Não exatamente, afinal, estávamos pelo menos três décadas mais velhos. E os vídeo games haviam se tornado muito mais sofisticados, claro. E eu fui condescendente, e permiti, no nosso Acordo, que ele pudesse praticar a arte do assobio. Nunca entendi a relevância deste tópico, já que a única vez em que ele assobiou na minha frente foi durante os cinco minutos após a assinatura do novo Acordo.
- Caramba... chega a doer só de pensar que se eu voltasse aqui nesta época eu os encontraria exatamente como naquele primeiro dia em que eu estava desfazendo minha bagagem...
- Naquele dia nós estávamos voltando de uma tentativa frustrada de doar nosso material genético em troca de dinheiro. Acho extremamente improvável que você nos reencontrasse naquela situação mais uma vez.
- Não mude de assunto, continue com a história.
- Só para sua ciência, depois que voltamos a morar aqui, logramos êxito em reunir-nos novamente com Raj e Howard em pelo menos duas ocasiões. Pedimos comida chinesa, jogamos nossos antigos jogos, e nos perguntamos sobre você. Foi fácil pesquisar na internet e descobrir que você encontrava-se casada, e morando não muito longe. Mas nenhum de nós teve coragem de ligar para convidá-la a se juntar a nós. Pensávamos que havia nos esquecido, e esse sentimento parecia incomodar Leonard em especial.
Penny parou um instante para organizar as ideias e acalmar o turbilhão de sentimentos que a acometera desde que reencontrara Sheldon ali, no mesmo lugar de sempre. Claro que ela pensara em Leonard muitas vezes ao longo dos anos, tivera vontade de procurá-lo em várias ocasiões. Sentia um carinho verdadeiro por ele. Mas, em seu íntimo, ela sabia que havia uma situação não resolvida, um outro sentimento que nunca tivera coragem de enfrentar e com o qual só conseguia lidar ignorando-o. E justo neste momento ele parecia querer aflorar. Não podia deixar isso acontecer, tinha que lutar para não ficar mais confusa do que já estava.
- Conte-me mais, Sheldon; ele morreu de quê?
- Se você quer mesmo saber, se isso satisfaz tua curiosidade mórbida, posso te dizer.
- Sheeeldon!
- Ok! Câncer! Ele morreu de câncer.
- Oh! Coitado!
- Entre o dia em que descobriu o tumor no cérebro, e o dia em que finalmente seus sinais vitais pararam, não se passaram nem 30 dias. Foi tudo muito rápido.
- Mas... ele... sofreu...?
- Como qualquer um que descobre que tem um tumor inoperável no cérebro, e que não possui mais muito tempo de vida pela frente. Acrescente a isso o fato de que até hoje não somos capazes de transferir nossa consciência para um computador... e você tem o fim absoluto. Foi essa a perspectiva que ele enfrentou, sozinho, nos últimos dias. E quando eu digo sozinho, afirmo que foi por escolha própria. Ele se sentou nesta poltrona aí, e calou-se. Falava apenas quando relembrávamos passagens de nossa juventude, particularmente daquele período em que você morava em frente. Então, começou a ter delírios, e seu último suspiro foi dentro do hospital, para onde o levamos.
- Levamos? Quem te ajudou?
- Não é preciso ser nenhuma vidente charlatã para adivinhar, Penny!
- Raj e Howard vieram?
- Sim, quem mais? Ele pediu para os chamar, e ambos correram assim que souberam da gravidade.
- E POR QUE NÃO ME PROCURARAM NESTA OCASIÃO?
- Ele não queria que você o visse naquele estado. E temia sofrer mais quando a visse. Foi uma decisão estranhamente racional para um físico experimental... Eles são tão... emotivos!
- Então, pelo menos ele passou os últimos dias cercado pelas pessoas que mais o amaram, e que ele mais amou; esse é um pensamento reconfortante. Que Deus o tenha.
- Sim, esse foi o fim de Leonard. Logo depois do enterro, onde comparecemos nós três e a inconveniente da Leslie Winkle, Raj e Howard partiram para suas respectivas mansões no Brasil. Prometeram dar a maior festa em sua memória. E desde então, nunca mais nos falamos.
- Sheldon, estou triste por saber de tudo isso; e ao mesmo tempo, feliz de o encontrar aqui, e bem. E estes dois motivos me fazem querer chorar...
- Não entendo como motivos antagônicos requerem, ao mesmo tempo, o mesmo objetivo: o derramamento de fluidos do canal lacrimal. Não faz sentido.
- Você próprio não faz sentido. Mas não é por isso que não o aceito.
- Esta aceitação é uma das minhas maiores conquistas.
- O que você quer dizer com isso, Sheldon? Não soa como o Sheldon que eu conheço...
- Bazinga! Peguei você de novo!
“Pegou mesmo”, pensou; e por um instante saboreou uma sensação agradável e ao mesmo tempo incômoda. Tratou de não pensar muito nisso, ainda mais porque sabia que estava ficando tarde e ainda nem tinha resolvido para onde iria. Teria que se hospedar num hotel qualquer até encontrar um lugar barato para alugar.
- Sheldon, acaba de me ocorrer uma coisa: o apartamento aí de frente, onde morei; ele se encontra disponível?
- Não, no momento ele está alugado.
- Que pena... por um instante pensei que seria legal voltar a sermos vizinhos.
- Este pensamento é perfeitamente factível. Quem o está alugando sou eu mesmo. Pode se mudar agora se assim o desejar.
- Você está alugando os dois apartamentos?
- Mas é claro que sim! Foi uma medida de proteção: eu não suportaria ter um vizinho inconveniente. Além disso, ainda posso ir lá, quando preciso me distrair, e bater na porta: Toctoctoc... Penny! Toctoctoc... Penny! Toctoctoc... Penny!
Ela sorriu ao lembrar-se desta característica de Sheldon. Costumava ficar atrás da porta ao final ainda da primeira série de batidas, mas esperava até o fim da terceira para atender. E ele sabia que ela fazia isso. Mais uma vez, seus pensamentos perderam-se em meio a memórias doces, que evocavam uma época tão feliz de sua vida, e que parecia ter se materializado à sua frente como num passe de mágica. Ficou olhando para ele sem conseguir dizer nada. Qualquer coisa que falasse poderia estragar a estranha felicidade que sentia naquele momento.
Sim, ela finalmente admitiu para si mesma. Apesar de ter namorado Leonard, e de ter se lembrado dele com carinho por todos esses anos; e de perceber em Raj e Howard uma amizade sincera e leal, havia um sentimento diferente por Sheldon que ela nunca quisera encarar. Era surreal demais sequer imaginar que ela, Penny, a garota mais popular do colégio, desenvolvera uma paixão pelo garoto mais nerd que ela conhecera em toda a sua vida. Não sabia exatamente como aquilo começou, mas tinha guardado lembranças de momentos que viveram juntos tão puros e ingênuos que plantaram a semente daquilo que agora parecia querer desabrochar com a força acumulada das décadas todas em que foi mantido sufocado num canto escondido qualquer de seu coração.
Com lágrimas a rolar pelas maçãs enrugadas de seu rosto, olhou para Sheldon, que continuava a fita-la esperando uma resposta; então, levantou e dirigiu-se para ele; parou à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos, e deu-lhe um beijo terno na bochecha.
- Obrigada, Sheldon; mas eu acho que não vou me mudar para lá não.
- Como? Você tem outro lugar para ficar? Eu não irei te cobrar o aluguel, posso muito bem suportar essa despesa. Minhas economias estão muito bem aplicadas, e o salário que recebo da universidade é mais do que suficiente para sustentar uma família inteira, e...
- Shhh... pare de falar por um instante e venha comigo.
Ela se levantou e estendeu-lhe a mão. Sheldon obedeceu sem entender o que se passava em sua mente. Ela foi guiando-o pelo corredor, até parar em frente à porta de seu quarto. Colocou a mão na maçaneta e abriu.
- Penny! Ninguém entra no meu quarto!
Ela ignorou o que ele falou e puxou-o até a cama. Fez um sinal para que se deitasse, e o cobriu carinhosamente com o edredon que jazia dobrado aos pés do colchão. Deu a volta, e deitou ao seu lado.
- Eu vou ficar aqui mesmo. Com você. No mesmo quarto que você, na mesma cama.
Sheldon abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. Ela levou o indicador aos lábios pedindo silêncio, enquanto com a outra mão acariciava seu cabelo e começava a cantar:

“Soft kitty, warm kitty, little ball of fur;
happy kitty, sleepy kitty, purr, purr, purr.”

2 comentários:

  1. Hahaha...Curti esse conto!
    Foi engraçado, nostálgico, e tu soube captar o espírito dos personagens nesse conto muito bem escrito, diga-se de passagem.
    É uma pena não podermos (meus amigos e eu) contar com a tua colaboração em nosso vindouro blog de contos, mas boa sorte pra todos os projetos da tua vida, Ricardo!
    Abraços!

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  2. Obrigado, Gilgamesh! E boa sorte pra vcs também, com certeza vou passear por lá de vez em quando!

    Abs!

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