O encantamento de Emília
"Marmelada de banana,
Bananada de goiaba,
Goiabada de marmelo..."
O primeiro sinal quem deu foi Tia Anastácia. Eu estava na cozinha do sítio, tinha acabado de voltar da venda do Elias Turco com algumas encomendas de Dona Benta quando ela entrou com aquele ar de cão farejador. Olhou pra Tia Anastácia com indiferença e perguntou de forma bastante autoritária quem estava ali. Eu me sentara na soleira da porta, entretido com um caule de cana de açúcar, de modo que ela não tinha me visto. Tia Anastácia apontou pra mim, e balbuciou meu nome tão baixinho que mal deu para escutar sua voz. Ela olhou em minha direção, fez um gesto de desdém, girou sobre seus calcanhares e sumiu pela casa adentro, a bater com seus pezinhos de pano macio pelo chão sem fazer nenhum barulho.
O que me chamou a atenção foi a reação de Tia Anastácia. Nunca a vira com aquela expressão de medo, e fiquei a observá-la nos instantes que se seguiram à saída de Emília da cozinha. Ela baixou os olhos, e fez um sinal da cruz bastante discreto antes de voltar a atenção mais uma vez para seu fogão, e a cantarolar como se nada tivesse acontecido.
Fiquei intrigado com aquela situação; no entanto, o tempo passou e a rotina se encarregou de ocupar minha mente com uma enorme sucessão de afazeres diários. Por ter me mantido ocupado, não voltei a pensar nesse assunto, até que um outro evento chamou minha atenção: era um dia nublado, com nuvens que ameaçavam descarregar uma bela água sobre nossas cabeças a qualquer momento. Voltava apressado do riacho, onde pescara uns lambaris para o jantar, quando vi Pedrinho acocorado dentro de uma moita. A princípio pensei que fosse uma brincadeira qualquer; mas percebi que a coisa era um pouco mais séria quando ele me viu e fez um sinal desesperado para que não fizesse barulho.
Balancei a cabeça com um movimento muito sutil para que ele soubesse que eu entendera seu gesto e continuei a caminhar. Entretanto, eu pressentira alguma coisa estranha, e decidi eu próprio me esconder por entre a mata para investigar o que havia de errado naquela situação. Voltei sorrateiro até bem próximo do ponto onde eu o vira, e ali fiquei, agachado rente ao chão, com os olhos grudados na moita onde ele se encontrava escondido, ao mesmo tempo em que vigiava o caminho. Era fim de tarde, os pássaros não cantavam mais, e o silêncio que se seguiu foi o mais denso que já tive a oportunidade de presenciar. Não parecia natural, e a tensão da espera me fez começar a transpirar. Foi quando ela apareceu.
Vinha pela trilha com seus passos silenciosos, numa atitude de predador que pressente a presa. Parecia farejar o ar. Eu nunca a vira com aquela expressão: era uma expressão maligna, os olhos apertados, a boca crispada, o cenho franzido. Confesso que tive uma sensação de medo, e um arrepio percorreu minha coluna até se alojar na nuca, de onde parecia que nunca iria se dispersar.
Uns dois passos atrás vinha o Visconde. Ele nunca pareceu tão "humano" como ela, pois tinha o tronco duro e um andar desengonçado, que denunciava sua condição não-natural. Parecia fazer um esforço enorme para se mover, colocava um pé à frente, projetava o tronco de lado até se equilibrar nesta nova base de apoio, e arrastava o outro pé, sem dobrar os joelhos, até se encontrar com o primeiro. Recomeçava o processo com a outra perna, e assim seu modo de caminhar se transformava numa espécie de dança macabra. Apesar disso, tinha um jeito mais doce, que encantava a todos. Só que desta vez era diferente: seu rosto transparecia pavor. E foi com pavor que presenciou quando Emília flagrou Pedrinho dentro da moita, e o mandou sair de lá com uns gestos ríspidos. Pedrinho parecia abatido, resignado; saiu da moita de cabeça baixa e pôs-se a caminhar à frente daquelas duas criaturas inumanas.
Resolvi intervir neste momento. Não conseguia entender o que havia de errado, apesar de sentir um perigo no ar. Saí de meu esconderijo e corri à frente para que me encontrassem de maneira natural, e não escondido a espreitá-los. Sentei num tronco caído à beira da estrada e aguardei. Não demorou muito para que chegassem; lancei um cumprimento no ar, ao mesmo tempo em que perguntava o que faziam ali àquela hora, ainda mais com a ameaça de chuva forte.
Quem me respondeu foi o próprio Pedrinho. Seu tom de voz era monótono, mecânico; e seu olhar parecia perdido no horizonte, vidrado, não olhava para mim. Mesmo assim, afirmou estar tudo bem, e que eu também devia correr para casa para escapar da chuva. Não parou de caminhar, passou por mim sem sequer olhar em minha direção. Logo em seguida veio a Emília, a me encarar com um sorrisinho ao mesmo tempo galhofeiro e ameaçador; e por último, o Visconde. Na ocasião não fui capaz de entender o olhar que me lançou, como a pedir socorro, como a suplicar por uma atitude minha que os salvasse, que os tirasse dali. E por esse momento de inação eu me arrependo.
Fiquei a observar os três um tempo, até que, um pouco antes de descerem uma colina e sumirem de minha vista, ela parou e me encarou à distância. Tive vontade de correr, mas me controlei e saí com toda a calma, decidido a procurar Dona Benta em breve e investigar melhor o que estava por trás de toda aquela aura de mistério que começava a pairar no ar.
***
"Rio de prata, pirata,
Voo sideral na mata,
Universo Paralelo..."
No dia seguinte, levantei-me cedo e fui procurar o Tio Barnabé. Ele era um senhor experiente, que já vira muitas coisas nessa vida. Fora ele quem me ensinara a caçar sacis, e, desde então, eu sempre mantinha um preso numa garrafa em minha casa numa espécie de aviso para outros sacis de que eu não deveria ser alvo de suas traquinagens.
Encontrei-o sentado à porta de sua cabana, concentrado em preparar as folhas de fumo para colocar no cachimbo. Assim que me viu levantou-se e pegou um segundo cachimbo, que mantinha preparado para estas eventuais visitas, e estendeu-o em minha direção enquanto abria seu sorriso largo e me saudava com seu jeito simpático e acolhedor.
Sentamo-nos à sombra de uma mangueira de seu quintal, e, como é costume na roça, pusemo-nos a conversar sobre amenidades: a chuva do dia anterior, a pesca que andava fraca para essa época do ano, os temores sobre a próxima colheita, essas coisas. Tudo permeado por silêncios compridos, momentos em que aproveitávamos para dar longas baforadas e nos deliciar com os aromas exalados pelas ervas que ele cultivava com tanto esmero.
A manhã passava lenta, e eu já estava envolvido numa aura de tranquilidade tão grande que nem me lembrava mais do motivo que me fizera ir até ali. Os recentes acontecimentos que envolviam a boneca Emília já não pareciam ter importância, talvez fossem apenas frutos da imaginação de um caipira solitário que não tem assunto para ocupar a mente.
A hora do almoço chegou, e dividimos um salsichão cozido com umas espigas de milho tão fumegantes que faziam a manteiga escorrer quando colocávamos por cima. E por fim, tomamos um café passado na hora, acompanhados de uns farelos de paçoca de amendoim – tudo isso finalizado com uma bela cachaça da região.
Bem alimentados, voltamos à sombra da mangueira e aos cachimbos. Dessa vez o papo fluía ainda mais devagar, cortado por momentos de cochilo de ambos. Em um desses cochilos, ainda que breve, tive um sonho estranho: sonhei que éramos observados por uma criatura maligna, pronta a dar o bote e nos capturar a qualquer momento. Mas, antes que isso pudesse acontecer, Tio Barnabé se levanta e vai até sua cabana, de onde volta com uma garrafa fechada por uma rolha; para no meio do terreiro, e, enquanto cantarola uma estranha canção, puxa a rolha. Da boca da garrafa começa a sair uma fumaça vermelha, depois negra, até que soa uma gargalhada tão alta que acordo, sobressaltado.
Ao meu lado, Tio Barnabé continuava a cochilar. O sol já começava a descer no horizonte, e resolvi me levantar e ir embora antes que escurecesse. Apesar do sonho estranho, o dia se passara numa atmosfera de tanta serenidade que me sentia mais aliviado. E teria continuado assim, não tivesse eu tido a ideia de olhar para trás antes de sair da vista de Tio Barnabé para lhe dar um último até logo – apenas para flagrá-lo debruçado na cerca a me observar com uma expressão séria e preocupada.
Antes eu não tivesse percebido a preocupação em sua expressão.
***
"No país da fantasia,
Num estado de euforia,
Cidade-polichinelo"
Existem noites mais assustadoras do que outras. Algumas são como sonhos infantis de tão tranquilas e inspiradoras, e parecem nos embalar num sono leve e despreocupado enquanto suas horas passam. Já outras trazem ameaças sutis, são silenciosas como cobras de tocaia, e nos deixam tensos por nem ao menos revelar o perigo que trazem em seu âmago.
A noite que começava não era deste tipo, muito menos do primeiro: ela trazia uma ameaça real, sem camuflagem, sem sutilezas. Crescera diante de meus olhos, e desde o primeiro instante já me agredia de todas as maneiras: vento uivante, rajadas de chuva e rasantes de morcegos eram apenas o início do espetáculo de horrores que estava por vir.
Eu saíra da cabana de Tio Barnabé antes do pôr do sol. No entanto, mal me pusera no caminho e foi como se a luz do dia acabasse de um minuto para o outro. Comecei a andar cada vez mais rápido, até que, quando dei por mim, já corria desesperado, a fugir de um perigo iminente que em minha imaginação já roçava meus calcanhares. Eu não conseguiria manter aquele ritmo por muito tempo, o fôlego já começava a faltar e as pernas não mantinham a velocidade inicial. Foi então que me deparei com uma situação inusitada: na trilha que se bifurcava à minha frente havia dois caminhos, um que ia direto para a sede do Sítio e o outro que passaria pela minha cabana. O estranho era que a tempestade que começava a cair se limitava ao caminho para o sítio. Controlei-me e parei para observar melhor: de um lado, raios cortavam o céu, trovões estalavam com fúria, o vento dobrava o mato; do outro, uma brisa noturna leve e refrescante, sem chuva, sem perigo. Naquele momento tive a certeza de que lidava com alguma força sobrenatural, não das do tipo que já me acostumara desde que havia me instalado naquela região, como bonecas de pano e sabugos de milho que ganham vida, ou até mesmo seres folclóricos como cucas e sacis; mas alguma coisa mais vil, mais maligna, que trazia em si uma ameaça ao mesmo tempo mais sutil e profunda. Não tive dúvida: segui o caminho de minha casa, ainda tenso, mas decidido a pôr um fim na situação. Eu iria pegar minha velha garrucha, colocar a capa grossa de chuva e rumar para a sede do sítio. Nada iria me deter.
Ao chegar a casa pus-me a juntar as coisas: garrucha, munição, capa. Foi então que me deparei com uma garrafa empoeirada em cima da geladeira, e enfim entendi o sonho que tivera à tarde debaixo da mangueira no quintal de Tio Barnabé. Anos atrás, eu havia aprisionado um saci naquela garrafa e deixara-o ali, à espera de um momento oportuno para valer-me de seus poderes. Eu sempre pensara que ele serviria para me proteger de algum outro saci que resolvesse me importunar, ou até mesmo da Cuca, embora nos últimos tempos ela já não metesse medo em mais ninguém. Só que as circunstâncias agora pediam o uso de todas as armas que eu pudesse utilizar, portanto passei a mão na garrafa, juntei-a aos outros itens e parti apressado para meu destino.
Quando cheguei no ponto em que teria que adentrar a tempestade, estanquei: Tio Barnabé estava ali, de pé, a pitar seu cachimbo. Ele me dedicou um olhar misto de piedade e desesperança e disse:
- Num vai diantá.
- Não vai adiantar o quê, Tio Barnabé?
- O saci. Num vai diantá di nada.
- Mas como o senhor pode saber?
- Hoje à tardinha: acho que vosmecê sabe o que eu quero dizê.
- Do... meu... sonho?
- Se foi assim que ocê viu... sim, foi aquilo mêmo. O saci não foi páreo pra ela.
- Ela quem? O senhor sabe de alguma coisa?
- Eu num sei di nada que vosmecê mêmo num saiba, meu fio. Só sei que essa meaça é real i pirigosa.
- Então, ou o senhor vem comigo, ou me deixa tentar, com ou sem saci. Pelo menos eu ainda tenho a velha e boa garrucha aqui comigo, e se for preciso, essa noite ela vai cuspir fogo.
Tio Barnabé soltou um muxoxo para mostrar que duvidava da eficácia desta arma também. Mas seguiu comigo, e fomos os dois em silêncio na direção do sítio. A tempestade continuava forte, com raios e trovões. Mas à medida que avançávamos, ela parecia diminuir de intensidade, até que quando chegamos à varanda ela tinha se reduzido a um chuvisco fino, porém constante. Parei e olhei para o Tio Barnabé, que me pareceu hesitante; e, justo no momento em que eu iria lhe perguntar se ele entraria comigo, um raio estalou tão alto e tão perto, que me fez perder a audição por uns instantes. Então, por meio de sinais com as mãos e a cabeça, combinamos que ele iria dar a volta e entrar pela cozinha, enquanto eu tentaria a sorte pela porta da frente mesmo.
E assim foi feito; venci os últimos metros que me separavam da entrada com passos decididos; parei à frente da porta principal, deslizei minha mão pela madeira lisa e senti o coração acelerar. Girei a maçaneta de um só golpe, ao mesmo tempo em que empurrava a porta e colocava a garrucha na posição de ataque, apontada para frente e preparada para cuspir fogo. Apesar de não ter nenhuma luz acesa, justo neste momento caiu outro raio, o que me possibilitou um vislumbre rápido da sala – que me pareceu vazia. Porém, no instante seguinte a escuridão voltara a dominar, e eu soube que precisava tirar a mão do gatilho para buscar o lampião que jazia apagado no alpendre da varanda logo atrás de mim. Respirei fundo, e senti que o suor começava a escorrer pelo meu rosto, misturado à água da chuva; a sensação de que havia um perigo iminente me dominara por completo, e eu temia pelo tempo precioso que gastaria nesta operação. Mas não havia alternativa. Troquei a garrucha de mão, de modo a continuar com ela a postos, dei um passo para trás e estiquei o braço, a tatear pela madeira em busca da alça do lampião – sempre com os olhos voltados à frente. De repente, senti uma dor aguda penetrar meu dedo; dei um salto, assustado, e senti que a garrafa com o saci caíra do bolso de minha capa. Pude ouvir o som do vidro estilhaçar ao entrar em contato com o chão; e de imediato, fui encoberto por uma nuvem espessa de fumaça com um odor acre. E assim, por causa de uma farpa, minha situação se deteriorara num piscar de olhos: lá estava eu, no escuro, sozinho, com um saci sedento de vingança à solta. Pelo menos ainda tinha minha garrucha pronta para me defender.
Mas não foi preciso gastar munição com o saci: senti sua presença ao meu lado, e me virei em sua direção, pronto para apertar o gatilho a qualquer momento. Ele me olhou com olhos cheios de ódio, mas, logo em seguida, sua atenção foi desviada para a porta da casa, que acabara de bater com um forte estrondo. Não tive coragem de olhar para trás: sua expressão de pavor foi suficiente para que eu soubesse que um perigo maior me esperava lá dentro. Então, com um movimento impossível para quem possuía apenas uma perna, ele se agachou e deu um salto inumano, que o levou por cima de uma cerca viva que circundava o jardim defronte à casa, e sumiu aos pulos pela escuridão da noite.
Refeito do susto, peguei o lampião e consegui acendê-lo sem perder muito tempo. Voltei para a porta da frente do sítio, e segurei a maçaneta mais uma vez. Girei-a e empurrei a porta, desta vez de leve, apenas o suficiente para colocar a mão com o lampião para dentro e poder assim investigar melhor o cômodo. Eu conhecia bem a planta do sítio, portanto sabia de onde esperar qualquer surpresa; e assim, preparado, respirei fundo e entrei. A luz do lampião era fraca, mas suficiente para que eu percebesse que a sala encontrava-se vazia. Nem sinal de Dona Benta, Narizinho ou Pedrinho. E, no momento em que penetrei naquele ambiente, foi como se houvera atravessado uma barreira invisível, que mantinha o lugar num silêncio sepulcral. Não conseguia ouvir nenhum som, apenas as batidas de meu coração e o ar, no movimento contínuo de entrar e sair de meus pulmões.
Tomei a direção do corredor, decidido a seguir para a cozinha e assim encontrar-me com Tio Barnabé, que a essa altura também já deveria ter entrado por lá. O corredor estava escuro, mas pude ver que a porta da cozinha encontrava-se aberta. Meus sentidos aguçaram-se, em estado de alerta máximo, e o suor escorria pela minha pele. Aproximei-me da porta, e segurei o lampião no alto. Um pequeno volume caído no chão chamou minha atenção: fui até ele e cutuquei-o com o pé. Era um boneco de pano, com braços escuros e barba branca de algodão, e um pequeno cachimbo espetado onde seria sua boca. A semelhança com Tio Barnabé era enorme, e senti minha coluna arrepiar-se ao me deparar com aquela pequena criatura macabra. Tomado pelo medo, resolvi chamar Tio Barnabé uma, duas, três vezes, com o volume de voz mais alto a cada tentativa. Não obtive resposta. Então, coloquei o boneco no bolso da capa e voltei para o corredor. Caminhei em silêncio até a porta do banheiro, e abri de supetão: que, como eu esperava, encontrava-se vazio. Continuei até a porta do primeiro quarto, onde eram os aposentos de Narizinho – e, onde, mais uma vez, não encontrei ninguém.
Cada vez mais desconfiado e com medo, segui pelo corredor, a verificar todos os cômodos: o quarto de Pedrinho, a sala de costura de Dona Benta, e por fim seu próprio quarto. Todos vazios. A casa parecia abandonada, não havia sinal de nenhum dos moradores.
Enfim, como chegara ao fim da casa, só me restava voltar por onde eu viera. Ainda com meus sentidos em alerta máximo, refiz o trajeto ao contrário, até que adentrei de novo a sala – só que, desta vez, pela porta de dentro. E foi aí que percebi uma cena que eu não percebera antes: a mesa estava posta, e, em cada cadeira havia um boneco de pano. Na cabeceira, lugar tradicional de Dona Benta, havia uma boneca de uma senhora, com os cabelos amarrados em um coque na parte de cima; e nas outras cadeiras os bonecos representavam um jovem rapaz com um estilingue nas mãos, uma garota com nariz arrebitado, uma senhora escura com avental e uma colher de pau. Todos guardavam uma expressão de tristeza, e eu diria até que havia um certo medo em seus olhos. Não conseguia entender o que aquilo representava, e então me lembrei do boneco que recolhera no chão da cozinha: enfiei a mão no bolso, e coloquei-os todos juntos, no sofá do centro da sala.
Neste momento, um trovão estalou do lado de fora, e seu clarão me trouxe uma revelação que eu me recusava a aceitar: ali estavam, diante de mim, os moradores do Sítio do Picapau Amarelo, transformados em bonecos de pano inertes – tal qual fora Emília num passado remoto. Que destino estranho e terrível era aquele, que transformava bonecas de pano em pessoas, e pessoas em bonecas de pano?
***
"Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O Sol nascente é tão belo..."
E este foi o último pensamento que passou pela minha cabeça. Enquanto eu o formulava, lembrei que Emília, embora tenha se tornado "gente", como costumávamos dizer, ainda mantinha características básicas de uma boneca: ainda era feita de pano e recheada de macela. E seus pezinhos macios não produziam ruído algum em contato com o chão de madeira do sítio.
Merda. Diante de meu terror ao contemplar aqueles hediondos bonecos de pano e perceber por fim o que eles representavam, eu me esquecera por completo disso. E foi então que ouvi sua vozinha fina e zombeteira a cantarolar baixinho, muito próxima de mim, uma canção que dizia mais ou menos o seguinte:
"Boneca de pano é gente,
Mais gente que o ser humano,
Gente é boneco de pano!"
Só tive tempo de colocar o cano da garrucha encostado debaixo de meu queixo e apertar o gatilho. O chumbo saiu quente, atravessou minha cabeça e chegou a atingir o teto.
E, no ar da sala do sítio, diante de um sofá cheio de pequenos bonecos inanimados, misturados à fumaça e ao cheiro de pólvora flutuavam inocentes flocos de macela, enquanto um boneco sem cabeça jazia ao chão.
Por Ricardo Herdy
Julho/Agosto de 2011

