quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Encantamento de Emília

O encantamento de Emília

"Marmelada de banana,
Bananada de goiaba,
Goiabada de marmelo..."
 
O primeiro sinal quem deu foi Tia Anastácia. Eu estava na cozinha do sítio, tinha acabado de voltar da venda do Elias Turco com algumas encomendas de Dona Benta quando ela entrou com aquele ar de cão farejador. Olhou pra Tia Anastácia com indiferença e perguntou de forma bastante autoritária quem estava ali. Eu me sentara na soleira da porta, entretido com um caule de cana de açúcar, de modo que ela não tinha me visto. Tia Anastácia apontou pra mim, e balbuciou meu nome tão baixinho que mal deu para escutar sua voz. Ela olhou em minha direção, fez um gesto de desdém, girou sobre seus calcanhares e sumiu pela casa adentro, a bater com seus pezinhos de pano macio pelo chão sem fazer nenhum barulho.
O que me chamou a atenção foi a reação de Tia Anastácia. Nunca a vira com aquela expressão de medo, e fiquei a observá-la nos instantes que se seguiram à saída de Emília da cozinha. Ela baixou os olhos, e fez um sinal da cruz bastante discreto antes de voltar a atenção mais uma vez para seu fogão, e a cantarolar como se nada tivesse acontecido.
Fiquei intrigado com aquela situação; no entanto, o tempo passou e a rotina se encarregou de ocupar minha mente com uma enorme sucessão de afazeres diários. Por ter me mantido ocupado, não voltei a pensar nesse assunto, até que um outro evento chamou minha atenção: era um dia nublado, com nuvens que ameaçavam descarregar uma bela água sobre nossas cabeças a qualquer momento. Voltava apressado do riacho, onde pescara uns lambaris para o jantar, quando vi Pedrinho acocorado dentro de uma moita. A princípio pensei que fosse uma brincadeira qualquer; mas percebi que a coisa era um pouco mais séria quando ele me viu e fez um sinal desesperado para que não fizesse barulho.
Balancei a cabeça com um movimento muito sutil para que ele soubesse que eu entendera seu gesto e continuei a caminhar. Entretanto, eu pressentira alguma coisa estranha, e decidi eu próprio me esconder por entre a mata para investigar o que havia de errado naquela situação. Voltei sorrateiro até bem próximo do ponto onde eu o vira, e ali fiquei, agachado rente ao chão, com os olhos grudados na moita onde ele se encontrava escondido, ao mesmo tempo em que vigiava o caminho. Era fim de tarde, os pássaros não cantavam mais, e o silêncio que se seguiu foi o mais denso que já tive a oportunidade de presenciar. Não parecia natural, e a tensão da espera me fez começar a transpirar. Foi quando ela apareceu.
Vinha pela trilha com seus passos silenciosos, numa atitude de predador que pressente a presa. Parecia farejar o ar. Eu nunca a vira com aquela expressão: era uma expressão maligna, os olhos apertados, a boca crispada, o cenho franzido. Confesso que tive uma sensação de medo, e um arrepio percorreu minha coluna até se alojar na nuca, de onde parecia que nunca iria se dispersar.
Uns dois passos atrás vinha o Visconde. Ele nunca pareceu tão "humano" como ela, pois tinha o tronco duro e um andar desengonçado, que denunciava sua condição não-natural. Parecia fazer um esforço enorme para se mover, colocava um pé à frente, projetava o tronco de lado até se equilibrar nesta nova base de apoio, e arrastava o outro pé, sem dobrar os joelhos, até se encontrar com o primeiro. Recomeçava o processo com a outra perna, e assim seu modo de caminhar se transformava numa espécie de dança macabra. Apesar disso, tinha um jeito mais doce, que encantava a todos. Só que desta vez era diferente: seu rosto transparecia pavor. E foi com pavor que presenciou quando Emília flagrou Pedrinho dentro da moita, e o mandou sair de lá com uns gestos ríspidos. Pedrinho parecia abatido, resignado; saiu da moita de cabeça baixa e pôs-se a caminhar à frente daquelas duas criaturas inumanas.
Resolvi intervir neste momento. Não conseguia entender o que havia de errado, apesar de sentir um perigo no ar. Saí de meu esconderijo e corri à frente para que me encontrassem de maneira natural, e não escondido a espreitá-los. Sentei num tronco caído à beira da estrada e aguardei. Não demorou muito para que chegassem; lancei um cumprimento no ar, ao mesmo tempo em que perguntava o que faziam ali àquela hora, ainda mais com a ameaça de chuva forte.
Quem me respondeu foi o próprio Pedrinho. Seu tom de voz era monótono, mecânico; e seu olhar parecia perdido no horizonte, vidrado, não olhava para mim. Mesmo assim, afirmou estar tudo bem, e que eu também devia correr para casa para escapar da chuva. Não parou de caminhar, passou por mim sem sequer olhar em minha direção. Logo em seguida veio a Emília, a me encarar com um sorrisinho ao mesmo tempo galhofeiro e ameaçador; e por último, o Visconde. Na ocasião não fui capaz de entender o olhar que me lançou, como a pedir socorro, como a suplicar por uma atitude minha que os salvasse, que os tirasse dali. E por esse momento de inação eu me arrependo.
Fiquei a observar os três um tempo, até que, um pouco antes de descerem uma colina e sumirem de minha vista, ela parou e me encarou à distância. Tive vontade de correr, mas me controlei e saí com toda a calma, decidido a procurar Dona Benta em breve e investigar melhor o que estava por trás de toda aquela aura de mistério que começava a pairar no ar.
 
***

"Rio de prata, pirata,
Voo sideral na mata,
Universo Paralelo..."

No dia seguinte, levantei-me cedo e fui procurar o Tio Barnabé. Ele era um senhor experiente, que já vira muitas coisas nessa vida. Fora ele quem me ensinara a caçar sacis, e, desde então, eu sempre mantinha um preso numa garrafa em minha casa numa espécie de aviso para outros sacis de que eu não deveria ser alvo de suas traquinagens.
Encontrei-o sentado à porta de sua cabana, concentrado em preparar as folhas de fumo para colocar no cachimbo. Assim que me viu levantou-se e pegou um segundo cachimbo, que mantinha preparado para estas eventuais visitas, e estendeu-o em minha direção enquanto abria seu sorriso largo e me saudava com seu jeito simpático e acolhedor.
Sentamo-nos à sombra de uma mangueira de seu quintal, e, como é costume na roça, pusemo-nos a conversar sobre amenidades: a chuva do dia anterior, a pesca que andava fraca para essa época do ano, os temores sobre a próxima colheita, essas coisas. Tudo permeado por silêncios compridos, momentos em que aproveitávamos para dar longas baforadas e nos deliciar com os aromas exalados pelas ervas que ele cultivava com tanto esmero.
A manhã passava lenta, e eu já estava envolvido numa aura de tranquilidade tão grande que nem me lembrava mais do motivo que me fizera ir até ali. Os recentes acontecimentos que envolviam a boneca Emília já não pareciam ter importância, talvez fossem apenas frutos da imaginação de um caipira solitário que não tem assunto para ocupar a mente.
A hora do almoço chegou, e dividimos um salsichão cozido com umas espigas de milho tão fumegantes que faziam a manteiga escorrer quando colocávamos por cima. E por fim, tomamos um café passado na hora, acompanhados de uns farelos de paçoca de amendoim – tudo isso finalizado com uma bela cachaça da região.
Bem alimentados, voltamos à sombra da mangueira e aos cachimbos. Dessa vez o papo fluía ainda mais devagar, cortado por momentos de cochilo de ambos. Em um desses cochilos, ainda que breve, tive um sonho estranho: sonhei que éramos observados por uma criatura maligna, pronta a dar o bote e nos capturar a qualquer momento. Mas, antes que isso pudesse acontecer, Tio Barnabé se levanta e vai até sua cabana, de onde volta com uma garrafa fechada por uma rolha; para no meio do terreiro, e, enquanto cantarola uma estranha canção, puxa a rolha. Da boca da garrafa começa a sair uma fumaça vermelha, depois negra, até que soa uma gargalhada tão alta que acordo, sobressaltado.
Ao meu lado, Tio Barnabé continuava a cochilar. O sol já começava a descer no horizonte, e resolvi me levantar e ir embora antes que escurecesse. Apesar do sonho estranho, o dia se passara numa atmosfera de tanta serenidade que me sentia mais aliviado. E teria continuado assim, não tivesse eu tido a ideia de olhar para trás antes de sair da vista de Tio Barnabé para lhe dar um último até logo – apenas para flagrá-lo debruçado na cerca a me observar com uma expressão séria e preocupada.
Antes eu não tivesse percebido a preocupação em sua expressão.
 
***
"No país da fantasia,
Num estado de euforia,
Cidade-polichinelo"
 
Existem noites mais assustadoras do que outras. Algumas são como sonhos infantis de tão tranquilas e inspiradoras, e parecem nos embalar num sono leve e despreocupado enquanto suas horas passam. Já outras trazem ameaças sutis, são silenciosas como cobras de tocaia, e nos deixam tensos por nem ao menos revelar o perigo que trazem em seu âmago.
A noite que começava não era deste tipo, muito menos do primeiro: ela trazia uma ameaça real, sem camuflagem, sem sutilezas. Crescera diante de meus olhos, e desde o primeiro instante já me agredia de todas as maneiras: vento uivante, rajadas de chuva e rasantes de morcegos eram apenas o início do espetáculo de horrores que estava por vir.
Eu saíra da cabana de Tio Barnabé antes do pôr do sol. No entanto, mal me pusera no caminho e foi como se a luz do dia acabasse de um minuto para o outro. Comecei a andar cada vez mais rápido, até que, quando dei por mim, já corria desesperado, a fugir de um perigo iminente que em minha imaginação já roçava meus calcanhares. Eu não conseguiria manter aquele ritmo por muito tempo, o fôlego já começava a faltar e as pernas não mantinham a velocidade inicial. Foi então que me deparei com uma situação inusitada: na trilha que se bifurcava à minha frente havia dois caminhos, um que ia direto para a sede do Sítio e o outro que passaria pela minha cabana. O estranho era que a tempestade que começava a cair se limitava ao caminho para o sítio. Controlei-me e parei para observar melhor: de um lado, raios cortavam o céu, trovões estalavam com fúria, o vento dobrava o mato; do outro, uma brisa noturna leve e refrescante, sem chuva, sem perigo. Naquele momento tive a certeza de que lidava com alguma força sobrenatural, não das do tipo que já me acostumara desde que havia me instalado naquela região, como bonecas de pano e sabugos de milho que ganham vida, ou até mesmo seres folclóricos como cucas e sacis; mas alguma coisa mais vil, mais maligna, que trazia em si uma ameaça ao mesmo tempo mais sutil e profunda. Não tive dúvida: segui o caminho de minha casa, ainda tenso, mas decidido a pôr um fim na situação. Eu iria pegar minha velha garrucha, colocar a capa grossa de chuva e rumar para a sede do sítio. Nada iria me deter.
Ao chegar a casa pus-me a juntar as coisas: garrucha, munição, capa. Foi então que me deparei com uma garrafa empoeirada em cima da geladeira, e enfim entendi o sonho que tivera à tarde debaixo da mangueira no quintal de Tio Barnabé. Anos atrás, eu havia aprisionado um saci naquela garrafa e deixara-o ali, à espera de um momento oportuno para valer-me de seus poderes. Eu sempre pensara que ele serviria para me proteger de algum outro saci que resolvesse me importunar, ou até mesmo da Cuca, embora nos últimos tempos ela já não metesse medo em mais ninguém. Só que as circunstâncias agora pediam o uso de todas as armas que eu pudesse utilizar, portanto passei a mão na garrafa, juntei-a aos outros itens e parti apressado para meu destino.
Quando cheguei no ponto em que teria que adentrar a tempestade, estanquei: Tio Barnabé estava ali, de pé, a pitar seu cachimbo. Ele me dedicou um olhar misto de piedade e desesperança e disse:
- Num vai diantá.
- Não vai adiantar o quê, Tio Barnabé?
- O saci. Num vai diantá di nada.
- Mas como o senhor pode saber?
- Hoje à tardinha: acho que vosmecê sabe o que eu quero dizê.
- Do... meu... sonho?
- Se foi assim que ocê viu... sim, foi aquilo mêmo. O saci não foi páreo pra ela.
- Ela quem? O senhor sabe de alguma coisa?
- Eu num sei di nada que vosmecê mêmo num saiba, meu fio. Só sei que essa meaça é real i pirigosa.
- Então, ou o senhor vem comigo, ou me deixa tentar, com ou sem saci. Pelo menos eu ainda tenho a velha e boa garrucha aqui comigo, e se for preciso, essa noite ela vai cuspir fogo.
Tio Barnabé soltou um muxoxo para mostrar que duvidava da eficácia desta arma também. Mas seguiu comigo, e fomos os dois em silêncio na direção do sítio. A tempestade continuava forte, com raios e trovões. Mas à medida que avançávamos, ela parecia diminuir de intensidade, até que quando chegamos à varanda ela tinha se reduzido a um chuvisco fino, porém constante. Parei e olhei para o Tio Barnabé, que me pareceu hesitante; e, justo no momento em que eu iria lhe perguntar se ele entraria comigo, um raio estalou tão alto e tão perto, que me fez perder a audição por uns instantes. Então, por meio de sinais com as mãos e a cabeça, combinamos que ele iria dar a volta e entrar pela cozinha, enquanto eu tentaria a sorte pela porta da frente mesmo.
E assim foi feito; venci os últimos metros que me separavam da entrada com passos decididos; parei à frente da porta principal, deslizei minha mão pela madeira lisa e senti o coração acelerar. Girei a maçaneta de um só golpe, ao mesmo tempo em que empurrava a porta e colocava a garrucha na posição de ataque, apontada para frente e preparada para cuspir fogo. Apesar de não ter nenhuma luz acesa, justo neste momento caiu outro raio, o que me possibilitou um vislumbre rápido da sala – que me pareceu vazia. Porém, no instante seguinte a escuridão voltara a dominar, e eu soube que precisava tirar a mão do gatilho para buscar o lampião que jazia apagado no alpendre da varanda logo atrás de mim. Respirei fundo, e senti que o suor começava a escorrer pelo meu rosto, misturado à água da chuva; a sensação de que havia um perigo iminente me dominara por completo, e eu temia pelo tempo precioso que gastaria nesta operação. Mas não havia alternativa. Troquei a garrucha de mão, de modo a continuar com ela a postos, dei um passo para trás e estiquei o braço, a tatear pela madeira em busca da alça do lampião – sempre com os olhos voltados à frente. De repente, senti uma dor aguda penetrar meu dedo; dei um salto, assustado, e senti que a garrafa com o saci caíra do bolso de minha capa. Pude ouvir o som do vidro estilhaçar ao entrar em contato com o chão; e de imediato, fui encoberto por uma nuvem espessa de fumaça com um odor acre. E assim, por causa de uma farpa, minha situação se deteriorara num piscar de olhos: lá estava eu, no escuro, sozinho, com um saci sedento de vingança à solta. Pelo menos ainda tinha minha garrucha pronta para me defender.
Mas não foi preciso gastar munição com o saci: senti sua presença ao meu lado, e me virei em sua direção, pronto para apertar o gatilho a qualquer momento. Ele me olhou com olhos cheios de ódio, mas, logo em seguida, sua atenção foi desviada para a porta da casa, que acabara de bater com um forte estrondo. Não tive coragem de olhar para trás: sua expressão de pavor foi suficiente para que eu soubesse que um perigo maior me esperava lá dentro. Então, com um movimento impossível para quem possuía apenas uma perna, ele se agachou e deu um salto inumano, que o levou por cima de uma cerca viva que circundava o jardim defronte à casa, e sumiu aos pulos pela escuridão da noite.
Refeito do susto, peguei o lampião e consegui acendê-lo sem perder muito tempo. Voltei para a porta da frente do sítio, e segurei a maçaneta mais uma vez. Girei-a e empurrei a porta, desta vez de leve, apenas o suficiente para colocar a mão com o lampião para dentro e poder assim investigar melhor o cômodo. Eu conhecia bem a planta do sítio, portanto sabia de onde esperar qualquer surpresa; e assim, preparado, respirei fundo e entrei. A luz do lampião era fraca, mas suficiente para que eu percebesse que a sala encontrava-se vazia. Nem sinal de Dona Benta, Narizinho ou Pedrinho. E, no momento em que penetrei naquele ambiente, foi como se houvera atravessado uma barreira invisível, que mantinha o lugar num silêncio sepulcral. Não conseguia ouvir nenhum som, apenas as batidas de meu coração e o ar, no movimento contínuo de entrar e sair de meus pulmões.
Tomei a direção do corredor, decidido a seguir para a cozinha e assim encontrar-me com Tio Barnabé, que a essa altura também já deveria ter entrado por lá. O corredor estava escuro, mas pude ver que a porta da cozinha encontrava-se aberta. Meus sentidos aguçaram-se, em estado de alerta máximo, e o suor escorria pela minha pele. Aproximei-me da porta, e segurei o lampião no alto. Um pequeno volume caído no chão chamou minha atenção: fui até ele e cutuquei-o com o pé. Era um boneco de pano, com braços escuros e barba branca de algodão, e um pequeno cachimbo espetado onde seria sua boca. A semelhança com Tio Barnabé era enorme, e senti minha coluna arrepiar-se ao me deparar com aquela pequena criatura macabra. Tomado pelo medo, resolvi chamar Tio Barnabé uma, duas, três vezes, com o volume de voz mais alto a cada tentativa. Não obtive resposta. Então, coloquei o boneco no bolso da capa e voltei para o corredor. Caminhei em silêncio até a porta do banheiro, e abri de supetão: que, como eu esperava, encontrava-se vazio. Continuei até a porta do primeiro quarto, onde eram os aposentos de Narizinho – e, onde, mais uma vez, não encontrei ninguém.
Cada vez mais desconfiado e com medo, segui pelo corredor, a verificar todos os cômodos: o quarto de Pedrinho, a sala de costura de Dona Benta, e por fim seu próprio quarto. Todos vazios. A casa parecia abandonada, não havia sinal de nenhum dos moradores.
Enfim, como chegara ao fim da casa, só me restava voltar por onde eu viera. Ainda com meus sentidos em alerta máximo, refiz o trajeto ao contrário, até que adentrei de novo a sala – só que, desta vez, pela porta de dentro. E foi aí que percebi uma cena que eu não percebera antes: a mesa estava posta, e, em cada cadeira havia um boneco de pano. Na cabeceira, lugar tradicional de Dona Benta, havia uma boneca de uma senhora, com os cabelos amarrados em um coque na parte de cima; e nas outras cadeiras os bonecos representavam um jovem rapaz com um estilingue nas mãos, uma garota com nariz arrebitado, uma senhora escura com avental e uma colher de pau. Todos guardavam uma expressão de tristeza, e eu diria até que havia um certo medo em seus olhos. Não conseguia entender o que aquilo representava, e então me lembrei do boneco que recolhera no chão da cozinha: enfiei a mão no bolso, e coloquei-os todos juntos, no sofá do centro da sala.
Neste momento, um trovão estalou do lado de fora, e seu clarão me trouxe uma revelação que eu me recusava a aceitar: ali estavam, diante de mim, os moradores do Sítio do Picapau Amarelo, transformados em bonecos de pano inertes – tal qual fora Emília num passado remoto. Que destino estranho e terrível era aquele, que transformava bonecas de pano em pessoas, e pessoas em bonecas de pano?
 
***
"Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O Sol nascente é tão belo..."

E este foi o último pensamento que passou pela minha cabeça. Enquanto eu o formulava, lembrei que Emília, embora tenha se tornado "gente", como costumávamos dizer, ainda mantinha características básicas de uma boneca: ainda era feita de pano e recheada de macela. E seus pezinhos macios não produziam ruído algum em contato com o chão de madeira do sítio.
Merda. Diante de meu terror ao contemplar aqueles hediondos bonecos de pano e perceber por fim o que eles representavam, eu me esquecera por completo disso. E foi então que ouvi sua vozinha fina e zombeteira a cantarolar baixinho, muito próxima de mim, uma canção que dizia mais ou menos o seguinte:

"Boneca de pano é gente,
Mais gente que o ser humano,
Gente é boneco de pano!"

Só tive tempo de colocar o cano da garrucha encostado debaixo de meu queixo e apertar o gatilho. O chumbo saiu quente, atravessou minha cabeça e chegou a atingir o teto.
E, no ar da sala do sítio, diante de um sofá cheio de pequenos bonecos inanimados, misturados à fumaça e ao cheiro de pólvora flutuavam inocentes flocos de macela, enquanto um boneco sem cabeça jazia ao chão.

Por Ricardo Herdy
Julho/Agosto de 2011

O Sítio do Pica Pau Amarelo nunca mais será o mesmo...

Pois é, queridos leitores; quando eu era pequeno, acabei lendo todos os livros da série do "Sítio do Pica Pau Amarelo"; fiquei fascinado pelas histórias, mas uma coisa sempre me intrigou: como assim uma boneca de pano virou gente? E um sabugo de milho?
Não pretendo jamais desvendar essas fantasias; então, por isso mesmo, recolvi criar outro dilema. Que vai aí, a seguir.

Espero que gostem e comentem.

Abs.

domingo, 3 de julho de 2011

The Big Bang Theory

Our whole universe was in a hot dense state,
Then nearly fourteen billion years ago expansion started. Wait...
The Earth began to cool,
The autotrophs began to drool,
Neanderthals developed tools,
We built a wall (we built the pyramids),
Math, science, history, unraveling the mysteries,
That all started with the big bang!

Pasadena, Califórnia.
A tarde fria e chuvosa aproximava-se de seu fim. As calçadas haviam sido recém limpas pelo SHUM - Sistema de Higienização Urbana Móvel, mas pequenas poças já começavam a aparecer para se tornarem obstáculos no caminho. Para a senhora de cabelos louros pintados elas não pareciam incomodar: vinha com o andar arrastado, o olhar perdido no horizonte, o pescoço curvado para frente. Acabava de sair de uma agência de financiamento instantâneo, onde deixara as últimas joias que ganhara de presente de seu terceiro marido – todos os três ligados de alguma forma com a indústria do cinema. O primeiro casamento fora com o produtor de uma série que lhe prometera um papel de destaque; no entanto, a série nem chegou a ir ao ar. Ainda na gravação do terceiro episódio o contrato foi rescindido, e seu marido, demitido. O casamento ainda durou mais três anos, mas tudo acabou num restaurante pequeno do centro quando o encontrou, por acaso, prometendo o papel de destaque em sua próxima série para uma garçonete loura e peituda que tinha acabado de chegar de Oklahoma. Qualquer semelhança com sua própria história era mera coincidência...
O segundo casamento foi com um ator. Conheceram-se numa audição para a escolha do elenco de um filme B, dirigido por um colombiano baixinho que usava boina e suspensórios e achava que sabia falar inglês. O bonitão moreno, alto e de olhos azuis, candidato ao papel principal, a convidou para um café, e desfilou seu repertório de figurações em produções “importantes”, sempre a ressaltar que sua chance estava chegando, era apenas questão de escolher o roteiro certo; além disso, seu agente o indicara para aquele papel, o que acabaria por lança-lo à fama, não havia dúvida. Não foram escolhidos, mas começaram a se encontrar com frequência, e, quando perceberam, já moravam juntos e compartilhavam a rotina de testes e audições – quase todas sem sucesso. Um dia, ao sair de um auditório onde acabara de ser recusada para um papel secundário sob a alegação de que “não tinha o sotaque certo”, pensou ter visto o tal diretor colombiano protegendo-se da chuva debaixo de uma marquise; começou a segui-lo um pouco de longe, esperando o momento certo para provocar um esbarrão e poder perguntar, assim como quem não quer nada, se ele não tinha nenhum projeto novo em vista. Foi quando seu companheiro surgiu na esquina em frente, meio que escondido por um sobretudo preto com um pequeno rasgo na manga esquerda que ela reconheceria a um quarteirão de distância. Estava visivelmente tenso, usando óculos escuros e boné, e sorriu meio sem graça quando o diretor foi em sua direção de braços abertos: cumprimentaram-se rapidamente com um beijo na boca, e entraram no pequeno hotel, em plena luz de um dia que acabava de se tornar cinzento.
O terceiro casamento aconteceu alguns anos depois: um executivo de um estúdio abordou-a na festa de lançamento de um filme no qual ela conseguira uma ponta; e, durante a conversa, ela acabou por citar uma máxima do Mestre Yoda – não sem se perguntar, internamente, por onde andaria aquele bando de lunáticos que moravam em frente ao seu antigo apartamento da época de solteira. O executivo adorou a citação nerd, não esperava isso de uma figurante loura; encantado, ofereceu-lhe carona, convites para jantar, festas de lançamento de filmes, e, finalmente, um anel. O casamento foi discreto, e a convivência, pacífica – porém fria e, a cada ano que se passava, mais distante. Não tiveram filhos, e, graças a um acordo pré-nupcial muito bem elaborado por seus advogados, o divórcio ocorreu sem maiores complicações – e sem maiores bens, claro.
A chuva começou a apertar, o que a obrigou a procurar um refúgio. Foi quando se deparou com a Cheesecake Factory, um antigo estabelecimento que havia sido seu primeiro emprego quando chegara de Omaha, Nebraska, algumas décadas atrás. Uma onda de nostalgia a invadiu, relembrando dos amigos que fizera naquela época, e que a vida tratara de afastar. Por onde andariam, o que teriam feito de suas vidas? Casaram, tiveram filhos? Estariam vivos, ainda? Talvez fosse melhor não saber.
Quando recobrou a consciência, percebeu que seus passos a guiaram para a porta do prédio em que vivera naquela época. Uma onda de arrepio percorreu sua coluna vertebral, e se pegou com medo de abrir aquela porta e reviver aqueles momentos doces e ingênuos de sua juventude há muito perdida. A saudade de seus amigos apertou-lhe o coração, e uma lágrima escapou, e mais uma, e mais outra, e outra... Foi interrompida por um entregador de comida tailandesa, que pediu-lhe licença, abriu a porta e sumiu escada acima. Ainda a enxugar as lágrimas, não pôde conter um sorriso ao perceber um aviso pregado na porta do elevador, que dizia “Fora de serviço”.
Procurou um lenço na bolsa e já ia embora, decidida a não prolongar mais aquele sentimento doído que a assaltara; foi quando percebeu o entregador voltando e resmungando alguma coisa sobre “aquele velho maluco”. Intrigada, resolveu voltar e entrar no prédio. Subiu os lances da escada até o terceiro andar, e parou em frente ao apartamento onde Sheldon e Leonard moraram, defronte ao dela própria. Lembrou também de Howard Wolowitz, o judeu tarado e inconveniente que namorara sua amiga Bernardette, e em Rajesh Koothrappali, o Raj, o indiano que não conseguia falar na presença de mulheres. Pensou em bater à porta e conhecer quem morava ali, mas achou melhor desistir, pois seria difícil explicar para o atual morador que ela procurava fantasmas de seu passado, seria tomada por uma velha louca e talvez chamassem a polícia. Deu uma olhada para a porta de seu antigo apartamento, soltou um suspiro e começou a descer as escadas de volta. Foi quando escutou uma porta se abrir, seguida por uma voz vagamente familiar:
- Penny? Por que demorou tanto?
***
O número de dimensões existentes no Universo
é dado pelo resultado da equação 1-[(D-2)/24]=0

Não havia dúvida: a figura envelhecida de Sheldon surgia à sua frente, enrolado num cobertor surrado, os pés enfiados dentro de pantufas com orelhas de coelho, e a mesma expressão de superioridade dos anos em que foram vizinhos e amigos – a despeito da postura levemente curvada. Sim, o mesmo Sheldon de outrora... Quem diria, voltar ao antigo prédio, e encontra-lo ali, abrindo a porta para ela e a convidando para entrar?! Parecia que voltara 50, 60 anos no tempo, que nada havia mudado desde então.
A mobília da sala mudara pouco: havia novidades tecnológicas, como a parede de monitor led que fazia às vezes de televisão, console de jogos e iluminação ambiente; a cozinha, com uma geladeira cuja porta também era um monitor; vários tablets espalhados pelas paredes, com fórmulas científicas e matemáticas, exatamente como as lousas que possuíam naqueles dias. Mas, de um modo geral, as coisas estavam praticamente nos lugares que ela própria já conhecia tão bem. Inclusive o sofá, com a almofada da esquerda amassada, enquanto as outras pareciam novas. Não resistiu e sentou-se exatamente ali, onde ela sabia que ele iria reclamar.
- Penny! Este é o meu lugar! Não é possível que tua senilidade esteja tão avançada para ter esquecido uma das constantes mais absolutas deste universo! Meu ponto (0,0,0,0), incluindo a coordenada da quarta dimensão, o tempo, que você já esqueceu de incluir uma vez! E isso só para simplificar, pois, de acordo com os avanços que consegui nos meus anos de estudo, estou a um passo de provar a existência de mais 22 dimensões além destas! Então, vou poder dizer que este lugar é o meu (0, 0, 0, 0, 0...
- Sheldon, pode parar de resmungar! Já saí do teu lugar, veja!
- ... 0, 0, 0, 0, 0...
- O que você fez nestes últimos anos? Ou seria mais adequado perguntar, o que você fez nas últimas décadas?
- ... 0, 0, 0, 0, 0, 0...
- Você vai mesmo ficar repetindo todos esses zeros aí? Acho que vou estar mais velha quando você acabar com essa besteira!
- ... 0, 0, 0, 0, 0, 0...
- Meu Deus, Sheldon! Você engasgou?
- ... 0, 0, 0, 0), embora seja arbitrário afirmar que a origem de todas estas dimensões seja o Zero, afinal, algumas delas possuem particularidades que ainda me escapam. E sim, quando eu terminei de enumerar todos os zeros das 26 dimensões do nosso universo, você estava mais velha do que quando comecei, pois nesta dimensão o tempo transcorre numa única direção, portanto, o que você afirmou é uma obviedade desnecessária e previamente conhecida até mesmo por seres com uma compreensão limitada do processo temporal. Que, por curiosidade, flui de maneira discreta, e não contínua como nossa percepção tenta nos fazer acreditar.
- Inacreditável! Todos esses anos, e você não mudou nada! Posso te dar um abraço? Estou tão emocionada... que... acho que quero... que vou... chuif, chuif...
- Não há motivo para contato corporal; no entanto, se isso a faz feliz, e, de alguma maneira preenche tua necessidade de cumprir com rituais sociais esperados, permitirei; mas antes preciso que você confirme algumas coisas.
- Confirmar o quê?
- Que neste tempo afastada você não contraiu nenhuma doença contagiosa, que este fluido escorrendo pelo seu nariz será devidamente limpo antes de se aproximar de mim e que... Ei!
- Deixe de bobagem, Sheldon! Um abraço é apenas a expressão da saudade e da emoção que estou sentindo neste momento!
- Você não devia ter feito isso antes das confirmações! Bom, suponho que agora só me resta torcer para não cair doente por causa disso! E... Penny?
- Sim?
- Pode me soltar agora?
- Ah, claro...
- Bom, enquanto você se serve da comida que acabou de chegar – o pato com tangerina é meu, e o outro é teu prato preferido, pode ficar com ele – vou responder à outra pergunta que ainda está sem resposta...
- Que pergunta?
- Por Spock, Penny! Você não me perguntou o que eu fiz nestas últimas décadas? Ou você está sofrendo do Mal de Alzheimer?
- Acho que ainda vou lamentar não ter manifestado este mal...
- Bom, depois que nos afastamos, eu fui trabalhar num projeto secreto do governo no Novo México. Fiquei muitos anos por lá, até que consegui uns resultados iniciais promissores com minhas experiências com teletransporte, e recebi um convite para voltar à Caltech, que incluía uma enorme bolsa para financiar as pesquisas e uma vaga como professor titular de Física Teórica. Consegui que algumas exigências minhas fossem aceitas e...
- Tenho até medo de perguntar quais as que não foram aceitas...
- Uma enorme besteira deles: pedi que colocassem uma maquete de trem que passasse por todo o laboratório, com macaquinhos como passageiros. Mas, como outra exigência, que era a de alugarem este exato apartamento para mim foi alcançada, decidi aceitar. Afinal, eu mesmo poderia construir a maquete com meus próprios recursos em outro local.
- E foi assim que você retornou... que legal! E quanto aos rapazes, você tem notícias deles?
- Se você se refere a Leonard, Raj e Howard, é claro que sim, embora eles não se qualifiquem mais como “rapazes” há um bom tempo. Eles formaram um grupo de música eletrônica chamado “O Nâzgul”, se batizaram como Gandalf, Merry e Pippin, e partiram em turnê pelo mundo.
- Mas o quê você está me dizendo!?
- Bazinga! Ar ar.
- Ufa, Sheldon... Por um momento eu pensei que...
- Para ser honesto, eu estava apenas introduzindo um pouco de humor nesta conversa que, nos próximos minutos, se tornará extremamente nostálgica. E, para quem reluta em aceitar e compreender o ciclo da vida, triste.
- Você pode parar com o suspense? O que houve com Raj, Howard e... Leonard?
- Pra começar, os rumos são diferentes, portanto será impossível construir um relato único que envolva o destino dos três. Ainda que os rumos de dois deles se entrelacem bastante.
- Você está falando de Raj e Howard, não é?
- Exatamente. Howard continuou trabalhando aqui na Caltech por um tempo, mas o Raj acabou tendo que voltar para a Índia para resolver assuntos familiares. Mantiveram contato, e chegaram a abrir uma empresa fornecedora de efeitos especiais para o cinema. É deles o lançamento do primeiro filme 100% holográfico, por exemplo, além dos efeitos olfativos. Muito criativos, embora eu próprio tenha tido essas ideias uns 10 anos antes.
- Oh, meu deus! Eles são os donos da KWEE?
- Obviamente; o que você acha que significa este anagrama tão sem criatividade? Simplesmente “Koothrapalli e Wolowitz Efeitos Especiais”
- Por que diabos eu nunca soube disso, meu deus?!
- Esta pergunta é retórica? Está cheia de referências divinas, eu não sou especialista nestes assuntos.
- Mas... onde eles estão hoje?
- Depois de conseguirem contratos vultosos com praticamente todos os estúdios de Hollywood, Howard viajou para a Índia para encontrar-se com Raj, e fizeram o mesmo sucesso em Bollywood. Ficaram bilionários, mudaram-se para o Brasil, onde rapidamente foram alçados à condição de “solteiros mais cobiçados”, e passaram a gastar a fortuna em festas em suas mansões e iates, sempre cercados das mais belas modelos. Uma bela mudança de paradigma.
- Estou sem palavras... aqueles dois... nerds? Cobiçados pelas modelos mais famosas do mundo? Eu nunca adivinharia isso! E pensar que eu os conheci quando eram praticamente dois virgens tímidos sem nenhuma possibilidade de conseguir uma garota!
- O mundo é um lugar surpreendente, não? O Princípio da Incerteza de Heisenberg já provava que...
- Não mude de assunto, Sheldon; me fale de Leonard. Por onde ele anda agora?
- Leonard faleceu há 15 anos. Não há o que falar sobre sua situação atual.
- Leonard morreu? COMO?
- Seu coração parou de bater, e seus sinais vitais sumiram, configurando assim aquilo que chamamos de morte. Ou fim da vida, dá no mesmo.
Penny levantou-se da poltrona, deu uma volta pela sala com o olhar perdido; parecia que a qualquer momento Leonard apareceria abrindo a porta e deixando a chave dentro do vaso que ficava em cima do criado-mudo junto à porta. Ou então viria pelo corredor, com os olhos espremidos, e diria, sem graça, “Ooooi, Penny”. Ela responderia, Sheldon ignoraria, Raj colocaria a mão em concha ao redor da orelha de Howard, que em seguida diria para todos o que Raj não conseguia dizer em sua presença sem estar bêbado. E se sentiria acolhida, confortada, invadida por um sentimento morno de aceitação, seria uma parte genuinamente integrante daquele grupo tão diferente de si própria. Quando se mudara para o apartamento em frente, jamais poderia imaginar que se tornaria tão importante para aqueles rapazes extremamente inteligentes, mas que não possuíam as habilidades sociais necessárias para se integrarem numa sociedade que valorizava atributos que, apesar de toda sua inteligência, jamais possuiriam. E o mais surpreendente de tudo foi que, mesmo com todas essas diferenças, ela fora aceita em seu círculo de uma maneira muito natural, e admirada por todos. Agora, olhando em retrospectiva, uma certeza começava a se formar com força em sua mente: aquele fora o período de sua vida em que se sentira mais amada e respeitada.
***
A viagem no tempo é teoricamente possível.
No entanto, o Homo Sapiens está mais longe dela
Do que um Neanderthal estava de chegar à Lua.

- Então... Leonard morreu... mas o que aconteceu com ele? Quero dizer, como foram seus últimos anos?
- Últimos anos? Seja mais precisa, Penny! Eu não posso ficar aqui descrevendo em detalhes seus últimos, vamos supor, cinco anos de vida, sem nos causar um enorme tédio e a provavelmente uma gangrena nos membros inferiores causada pela imobilidade a que estaríamos condenados!
- Ai, Sheldon... conte-me o que você quiser, mas me dê mais detalhes, por favor!
- Bom, para resumir, posso lhe dizer que, quando fui convidado para voltar à Caltech para desenvolver minha pesquisa em teletransporte, uma das condições que impus foi a contratação de Leonard como meu chefe de pesquisa prática. Eles entraram em contato com Leonard, que relutou muito em voltar, mas por fim acabou aceitando. E então nos vimos morando novamente juntos aqui, neste apartamento. Fizemos um novo e melhorado Acordo de Moradia, assinamos, e assim estávamos, finalmente, de volta aonde tudo começou.
- Exatamente como nos velhos tempos!
- Não exatamente, afinal, estávamos pelo menos três décadas mais velhos. E os vídeo games haviam se tornado muito mais sofisticados, claro. E eu fui condescendente, e permiti, no nosso Acordo, que ele pudesse praticar a arte do assobio. Nunca entendi a relevância deste tópico, já que a única vez em que ele assobiou na minha frente foi durante os cinco minutos após a assinatura do novo Acordo.
- Caramba... chega a doer só de pensar que se eu voltasse aqui nesta época eu os encontraria exatamente como naquele primeiro dia em que eu estava desfazendo minha bagagem...
- Naquele dia nós estávamos voltando de uma tentativa frustrada de doar nosso material genético em troca de dinheiro. Acho extremamente improvável que você nos reencontrasse naquela situação mais uma vez.
- Não mude de assunto, continue com a história.
- Só para sua ciência, depois que voltamos a morar aqui, logramos êxito em reunir-nos novamente com Raj e Howard em pelo menos duas ocasiões. Pedimos comida chinesa, jogamos nossos antigos jogos, e nos perguntamos sobre você. Foi fácil pesquisar na internet e descobrir que você encontrava-se casada, e morando não muito longe. Mas nenhum de nós teve coragem de ligar para convidá-la a se juntar a nós. Pensávamos que havia nos esquecido, e esse sentimento parecia incomodar Leonard em especial.
Penny parou um instante para organizar as ideias e acalmar o turbilhão de sentimentos que a acometera desde que reencontrara Sheldon ali, no mesmo lugar de sempre. Claro que ela pensara em Leonard muitas vezes ao longo dos anos, tivera vontade de procurá-lo em várias ocasiões. Sentia um carinho verdadeiro por ele. Mas, em seu íntimo, ela sabia que havia uma situação não resolvida, um outro sentimento que nunca tivera coragem de enfrentar e com o qual só conseguia lidar ignorando-o. E justo neste momento ele parecia querer aflorar. Não podia deixar isso acontecer, tinha que lutar para não ficar mais confusa do que já estava.
- Conte-me mais, Sheldon; ele morreu de quê?
- Se você quer mesmo saber, se isso satisfaz tua curiosidade mórbida, posso te dizer.
- Sheeeldon!
- Ok! Câncer! Ele morreu de câncer.
- Oh! Coitado!
- Entre o dia em que descobriu o tumor no cérebro, e o dia em que finalmente seus sinais vitais pararam, não se passaram nem 30 dias. Foi tudo muito rápido.
- Mas... ele... sofreu...?
- Como qualquer um que descobre que tem um tumor inoperável no cérebro, e que não possui mais muito tempo de vida pela frente. Acrescente a isso o fato de que até hoje não somos capazes de transferir nossa consciência para um computador... e você tem o fim absoluto. Foi essa a perspectiva que ele enfrentou, sozinho, nos últimos dias. E quando eu digo sozinho, afirmo que foi por escolha própria. Ele se sentou nesta poltrona aí, e calou-se. Falava apenas quando relembrávamos passagens de nossa juventude, particularmente daquele período em que você morava em frente. Então, começou a ter delírios, e seu último suspiro foi dentro do hospital, para onde o levamos.
- Levamos? Quem te ajudou?
- Não é preciso ser nenhuma vidente charlatã para adivinhar, Penny!
- Raj e Howard vieram?
- Sim, quem mais? Ele pediu para os chamar, e ambos correram assim que souberam da gravidade.
- E POR QUE NÃO ME PROCURARAM NESTA OCASIÃO?
- Ele não queria que você o visse naquele estado. E temia sofrer mais quando a visse. Foi uma decisão estranhamente racional para um físico experimental... Eles são tão... emotivos!
- Então, pelo menos ele passou os últimos dias cercado pelas pessoas que mais o amaram, e que ele mais amou; esse é um pensamento reconfortante. Que Deus o tenha.
- Sim, esse foi o fim de Leonard. Logo depois do enterro, onde comparecemos nós três e a inconveniente da Leslie Winkle, Raj e Howard partiram para suas respectivas mansões no Brasil. Prometeram dar a maior festa em sua memória. E desde então, nunca mais nos falamos.
- Sheldon, estou triste por saber de tudo isso; e ao mesmo tempo, feliz de o encontrar aqui, e bem. E estes dois motivos me fazem querer chorar...
- Não entendo como motivos antagônicos requerem, ao mesmo tempo, o mesmo objetivo: o derramamento de fluidos do canal lacrimal. Não faz sentido.
- Você próprio não faz sentido. Mas não é por isso que não o aceito.
- Esta aceitação é uma das minhas maiores conquistas.
- O que você quer dizer com isso, Sheldon? Não soa como o Sheldon que eu conheço...
- Bazinga! Peguei você de novo!
“Pegou mesmo”, pensou; e por um instante saboreou uma sensação agradável e ao mesmo tempo incômoda. Tratou de não pensar muito nisso, ainda mais porque sabia que estava ficando tarde e ainda nem tinha resolvido para onde iria. Teria que se hospedar num hotel qualquer até encontrar um lugar barato para alugar.
- Sheldon, acaba de me ocorrer uma coisa: o apartamento aí de frente, onde morei; ele se encontra disponível?
- Não, no momento ele está alugado.
- Que pena... por um instante pensei que seria legal voltar a sermos vizinhos.
- Este pensamento é perfeitamente factível. Quem o está alugando sou eu mesmo. Pode se mudar agora se assim o desejar.
- Você está alugando os dois apartamentos?
- Mas é claro que sim! Foi uma medida de proteção: eu não suportaria ter um vizinho inconveniente. Além disso, ainda posso ir lá, quando preciso me distrair, e bater na porta: Toctoctoc... Penny! Toctoctoc... Penny! Toctoctoc... Penny!
Ela sorriu ao lembrar-se desta característica de Sheldon. Costumava ficar atrás da porta ao final ainda da primeira série de batidas, mas esperava até o fim da terceira para atender. E ele sabia que ela fazia isso. Mais uma vez, seus pensamentos perderam-se em meio a memórias doces, que evocavam uma época tão feliz de sua vida, e que parecia ter se materializado à sua frente como num passe de mágica. Ficou olhando para ele sem conseguir dizer nada. Qualquer coisa que falasse poderia estragar a estranha felicidade que sentia naquele momento.
Sim, ela finalmente admitiu para si mesma. Apesar de ter namorado Leonard, e de ter se lembrado dele com carinho por todos esses anos; e de perceber em Raj e Howard uma amizade sincera e leal, havia um sentimento diferente por Sheldon que ela nunca quisera encarar. Era surreal demais sequer imaginar que ela, Penny, a garota mais popular do colégio, desenvolvera uma paixão pelo garoto mais nerd que ela conhecera em toda a sua vida. Não sabia exatamente como aquilo começou, mas tinha guardado lembranças de momentos que viveram juntos tão puros e ingênuos que plantaram a semente daquilo que agora parecia querer desabrochar com a força acumulada das décadas todas em que foi mantido sufocado num canto escondido qualquer de seu coração.
Com lágrimas a rolar pelas maçãs enrugadas de seu rosto, olhou para Sheldon, que continuava a fita-la esperando uma resposta; então, levantou e dirigiu-se para ele; parou à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos, e deu-lhe um beijo terno na bochecha.
- Obrigada, Sheldon; mas eu acho que não vou me mudar para lá não.
- Como? Você tem outro lugar para ficar? Eu não irei te cobrar o aluguel, posso muito bem suportar essa despesa. Minhas economias estão muito bem aplicadas, e o salário que recebo da universidade é mais do que suficiente para sustentar uma família inteira, e...
- Shhh... pare de falar por um instante e venha comigo.
Ela se levantou e estendeu-lhe a mão. Sheldon obedeceu sem entender o que se passava em sua mente. Ela foi guiando-o pelo corredor, até parar em frente à porta de seu quarto. Colocou a mão na maçaneta e abriu.
- Penny! Ninguém entra no meu quarto!
Ela ignorou o que ele falou e puxou-o até a cama. Fez um sinal para que se deitasse, e o cobriu carinhosamente com o edredon que jazia dobrado aos pés do colchão. Deu a volta, e deitou ao seu lado.
- Eu vou ficar aqui mesmo. Com você. No mesmo quarto que você, na mesma cama.
Sheldon abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. Ela levou o indicador aos lábios pedindo silêncio, enquanto com a outra mão acariciava seu cabelo e começava a cantar:

“Soft kitty, warm kitty, little ball of fur;
happy kitty, sleepy kitty, purr, purr, purr.”

Fanfic de The Big Bang Theory

Pois é, senhores; eu resolvi que preciso treinar mais antes de voltar a desenvolver o livro. Andava com os dedos muito enferrujados, e então optei por fazer uns treinos. O primeiro a que me propus foi um exercício sobre nostalgia; aproveitei que ando mergulhado no universo de Sheldon, Leonard, Penny & outros, e inventei uma história (o famoso "fanfic", rótulo que não sei se gosto) com estes personagens.
Enfim, é isso: aí vai meu primeiro "fanfic" de The Big Bang Theory.

Em tempo: não gosto muito do ator que faz o Leonard.

domingo, 10 de abril de 2011

Baseado numa frase de Roberto Marques: "Durante chuva de bocejos, os aipins gritam 'Catatau'!"

"O fenômenu sempre acontecia du memo jeito. O tempo ia fechanu, as nuve escurecia, e até o vento arrumava um modo de se enfeitar: trazia folhas verdinhas, pétalas coloridas, brabuletas lutando pra avoar no rumo, tudo como se fosse uma dança maluca, que ora ficava rápida, ora parecia que fazia o tempo parar.
 
E então, as estranheza tinha início.
 
Começava lá pros lado do Brejo Moiado. As coisa ia mudando de cor, os sons ficava tudo escuro. Nhá Xicota se benzia, dizendo que era obra do Coisa-Ruim. Mas eu sempre pensei que tinha mais pinta de coisa dos anjo, pruque os bicho num sentia medo, não. Eles num fugia, ficava tudo parado, oiando como se tivesse encantado.
 
Os primeiros bocejos eram pequenininhos, mal dava pra perceber. Mas num instante virava um toró danado deles, de tamanhos e intensidades variadas. Quem tivesse por perto não conseguia parar de bocejar também: a chuva de bocejos atingia a região toda, e quanto mais caíam do céu, mas o povo abria as boca. Era um festival de gengivas e dentes se mostrando, e logo o povo não parava de rir e de se admirar do milagre: das nuve carregadas de sonos e sonhos, bocejos caíam, influenciando os vivente e colocando todos pra querer durmi e sonhar mais.
 
Mas as estranheza não cabava aí não: mal a chuva começava, e quem tinha perna pra correr ia em disparada pra prantação de mandioca do Coroné Gumercindo. Quem ia chegando ia ficanu quieto, e pedia silêncio pros que se ademoravam um pouco mais. E era ali, na prantação de mandioca, durante a chuva de bocejos, que outro milagre se dava: as vozes eram baixas e graves, e nas primeras vez, num dava pra entender o que diziam. Mas era só apurá os ovido, colocá as mão em concha em volta das oreia, que se ovia direitim, como se fosse pipoca estourando na panela ou os sapos do brejo numa noite quente:  Catatau. Catatau. Catataaaaaaau...
 
Eu juro por tudo o que há de mais sagrado nessa vida: era os póprios aipim, ainda de baixo da terra, que gritavam 'Catatau'. O que eles queria eu nunca soube, nem nunca fiquei pra saber. Mas que era bonito e estranho, ah era..."
 
Herdy, Nicolino. "Armadilhas de caçar caqui: crônicas de uma terra e um tempo sem devaneios", in Séries Criativas, 1 Ed. Rio de Janeiro: RM Editora, 2010  p. 51

Os da minha rua

  Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá embaixo, na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar ar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.
  A chuva parou. O mais difícil era saber parar as lágrimas.
  O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.
  Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.
  Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.
  - Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
  - Vão pra casa, filho.
  - Tantas vezes de um lado para o outro?
  - Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou. - É uma coisa que se encontra.


ONDJAKI

sábado, 26 de março de 2011

Uma flauta e o zen


UMA FLAUTA E O ZEN
Vagarosamente
o horizonte se revela.
Dissipa-se a névoa.

A tarde já ia em seu fim. Os flocos de neve começavam a cair com uma intensidade maior, cobrindo todo o cume do monte Hiei. No templo Enriaku-ji, localizado um pouco abaixo, não era diferente. Os monges já haviam se recolhido, e o silêncio era quebrado apenas pelo ranger dos galhos das árvores balançando com o vento frio que começava a soprar. Além desse, o único movimento que se podia perceber no ambiente era a fumaça elevando-se da cozinha. O pátio localizado entre o templo e a floresta encontrava-se vazio, e, no chão, pegadas recentes marcavam a neve, vindas da única trilha que ligava o templo ao mundo exterior.
Yumi entrou assim que acabou de acender os lampiões do pátio. Parou no corredor que levava à cozinha, e ficou por um longo tempo admirando pela janela a placidez da cena lá fora. Cruzou os braços, colocou as mãos debaixo das axilas num gesto de satisfação por encontrar-se protegida e aquecida, e por sentir o cheiro bom da lenha e o crepitar do fogo na lareira. Ficou observando o pátio na penumbra, até que teve a impressão de ter visto alguém nos degraus. Aguçou o olhar e constatou que não estava enganada: em um dos cantos havia um jovem sentado. Intrigada, concentrou-se para tentar descobrir quem era; no entanto, a pouca luz do ambiente e a neve caindo dificultavam o reconhecimento. Mesmo nestas condições, percebeu que as roupas dele não eram adequadas à temperatura do lado de fora. Devia ser um peregrino recém-chegado, os monges que lá habitavam não se arriscariam em passeios nesta época do ano com roupas tão leves. Como estava acostumada a fazer quando chegavam viajantes ao templo, Yumi apressou-se para receber o rapaz. Devia estar com frio e cansado da extenuante viagem pela trilha íngreme, e ansiando por um prato de comida quente.
Sendo aquele templo um seguidor da linhagem Rinzai, a preferida entre os samurais, era comum aparecerem por ali guerreiros em busca de iluminação espiritual. Por isso não se assustou quando percebeu que o jovem trazia nas costas uma espada de madeira. Caminhou na direção dele parando um passo à sua frente. O rapaz continuou imóvel, com o olhar compenetrado em algum ponto além do horizonte. Mas apesar de estar de olhos abertos, a impressão era a de que o horizonte que ele contemplava estava dentro de si mesmo. Yumi ainda não tinha como saber, mas aquele olhar ficaria gravado em sua memória para sempre.
Timidamente, fez uma reverência e estendeu-lhe o braço, convidando-o a acompanhá-la; e então percebeu uma grande mancha vermelha na neve ao redor dos pés do jovem rounin. Ele já devia estar ali há algum tempo, pois o sangue no chão encontrava-se congelado, os lábios estavam roxos, e os cabelos escondidos debaixo de uma camada de neve acumulada. Yumi continuou com o braço esticado por algum tempo, até que finalmente percebeu uma reação; o jovem olhara na direção dela, e, num gesto rápido, levantou-se e fez uma reverência profunda, para, em seguida, cair desfalecido no chão.

***

O monge Kakua parou para descansar. Já estava caminhando há horas, e os pés começavam-lhe a acusar o esforço. Afastou-se um pouco da trilha e sentou-se recostado a uma pedra onde o sol ainda batia. Retirou uma flauta das dobras do quimono e começou a tocar. Uma melodia triste invadiu a área, quebrando o silêncio da tarde precocemente fria que caía na região do monte Hiei.

Dias atrás, Kakua encontrava-se meditando no templo quando soube da chegada de um mensageiro do imperador. Este,
Nos dias que se seguiram à partida do mensageiro, Kakua pôs-se a caminhar pelo bosque ao redor do templo, sempre acompanhado da flauta. Levava horas contemplando uma flor, outras vezes parecia extasiar-se com o canto de um pássaro.
Os outros monges e os aprendizes não conseguiam entender que espécie de preparativos eram aqueles. Apesar disso, permaneciam calados, em uma distante admiração. E assim os dias foram passando, até que em uma manhã deram pela falta de Kakua. Partira cedo, sem avisar, e sem preparar uma sacola com roupas e mantimentos. Ganhara a estrada apenas com seu
Enquanto tocava flauta e o conforto provocado pelos últimos raios de sol diminuía, Kakua pensava sobre o rumo que tomaria na bifurcação que se abria à sua frente. Foi interrompido pelo som de vozes: pela estrada, vinham caminhando um velho e uma jovem. Ele na casa de seus sessenta anos, caminhando com uma certa dificuldade, utilizando um bastão de madeira como apoio; ela, uma jovem que ainda não completara quinze. Ambos pareciam cansados, e o velho alertava para a necessidade de procurarem um abrigo para pernoitar e se protegerem do frio. Kakua pensou que seria uma boa oportunidade para ter companhia, e resolveu ir ter com eles. Guardou a flauta e caminhou de volta até a trilha.

- O inverno chegou cedo mesmo este ano, não foi?, disse Kakua após uma longa reverência.
- Sim, chegou, respondeu o velho tranqüilamente, também fazendo uma reverência. Estamos procurando abrigo para esta noite. Conheces algum por aqui?
- Um pouco mais adiante existe uma cabana para os viajantes. Eu estava mesmo pensando em passar a noite lá. Posso acompanhá-los?
- Sim, ter a companhia de um monge por algum tempo será interessante. Eu me chamo Kubota Hisashi, e esta jovem é minha neta, Sayako.
- E o que fazem na estrada nesta época do ano? Estão indo para a capital?
- Sim, estamos; Sayako irá estudar o Shô, a arte da caligrafia. É uma tradição em nossa família. Como hoje em dia o melhor mestre, Moka, vive na capital, estamos indo para lá pedir-lhe que a aceite como discípula.
Kakua assentiu com um gesto, como se concordasse com a opinião do velho a respeito do mestre Moka. Seus olhos se perderam, e por um momento parecia estar sendo assaltado por velhas lembranças. Com um sorriso quase imperceptível, deu meia volta e seguiu na direção da cabana. O velho e a neta foram logo atrás.
Caminharam por pouco mais de uma hora, quando finalmente avistaram a cabana. Era um pequeno abrigo de madeira, onde
Apesar de muito cansado, Hisashi providenciou uns gravetos para acender uma fogueira. Os três reuniram-se ao redor dela, e enquanto preparavam o chá, Kakua retirou a flauta das dobras do quimono e pôs-se a tocar uma alegre canção. Tanto Hisashi como Sayako pareceram gostar, pois abriram largos sorrisos. Ficaram ouvindo extasiados, e, ao fim da música, se curvaram, agradecendo. Kakua parecia radiante também, e por isso resolveu propor-lhes um kôan.
- Mas o que vem a ser um kôan, mestre Kakua?
- Uma espécie de jogo. Vou dar-lhes algo para pensarem a respeito, e talvez os caminhos por onde vossa
Sayako olhou para o avô com os olhos mais carentes que podia ter; este percebeu a curiosidade da neta, e assentiu com a cabeça para que Kakua continuasse. Estavam ambos ansiando por aquela novidade, embora não quisessem demonstrar.
- Qual o som de uma só mão batendo palmas?, disse Kakua, enquanto se ajeitava na esteira estendida no chão. Hisashi e Sayako entreolharam-se, atônitos.

****
Inverno rigoroso.
O rubor aquece a face
da minha amada.


Yumi descansava sentada no tatami quando ouviu uns resmungos vindos da direção de onde estava o jovem rounin ferido. Levantou-se rapidamente e foi até ele.

- Ah, finalmente acordou!, disse Yumi. Está se sentindo melhor?
- Mestre Kakua... preciso vê-lo!, respondeu o rounin, sem disfarçar a ansiedade que tomava conta de si.
- Temo que tenha chegado tarde. Kakua partiu no final do outono para a capital.
- Preciso... vê-lo!, repetiu, ao mesmo tempo em que tentava se levantar e desistia com uma expressão de dor.
- Você ainda não está em condições de ir embora; nos últimos três dias teve convulsões e febre alta. O corte em sua perna foi profundo, perdeu muito sangue. Vai ter que repousar por um bom tempo ainda.

Yumi levantou-se e saiu do aposento onde instalara o rapaz. Voltou logo em seguida trazendo uma bandeja com chá quente e alguns bolinhos. Ajoelhou-se ao seu lado e depositou a bandeja no chão com cuidado.

- Coma, vai lhe fazer bem.

Neste momento Yumi fez menção de se levantar, porém foi contida: o rapaz segurou-lhe a mão e olhou-a nos olhos.

- Obrigado... Acho que ainda não nos apresentamos, não é?

Yumi não respondeu nada. Apenas abaixou os olhos, desviando-os daquele olhar que, por algum motivo, tanto a incomodava.

- Eu me chamo Nishimura Iori. E você?
- Kishida Yumi.
- Obrigado por me acolher.
  pai não podia aceitar o rumo que o filho estava tomando, e decidiu procurar alguém para orientá-lo. Foi até o templo da região, e soube que lá havia um monge de partida para a China, onde estudaria novas disciplinas. Seu nome era Kakua. Conversou com ele, e pediu que aconselhasse o jovem Iori antes de viajar. proposta que tenho para lhes dar: eu levarei este rapaz comigo, e o educarei. Isto é, se seus pais permitirem.
Yumi livrou sua mão, levantou-se e saiu apressada. Já no final do corredor não agüentou e começou a correr. Sentia o rosto queimar, e cobriu as bochechas com as mãos para que os monges não reparassem no quanto deviam estar vermelhas. Foi para seus aposentos, e não saiu de lá até a manhã seguinte.
Iori acordou bem disposto. As dores estavam mais suportáveis, e sentia-se mais forte após uma noite bem dormida e da refeição quente levada para ele por Yumi. Onde estaria ela agora? Enquanto pensava se a tinha assustado, um noviço apareceu no quarto.

- Está um dia claro e frio, Iori-sama. Este inverno será rigoroso, não acha?
- Sim.
- Eu soube que você está à procura de Mestre Kakua. Infelizmente, ele teve que partir para o Palácio Imperial, o imperador quer interrogá-lo a respeito de seus estudos no período em que esteve na China. Bom, acho melhor deixá-lo descansar mais. Daqui a pouco Yumi trará chá. Com licença.

Iori ficou pensando no que o tinha trazido até aquele templo: a necessidade de conversar com Kakua. Alguns anos atrás, era ainda um adolescente vivendo no campo e pensando sempre em como fazer o pai se orgulhar dele. O avô tinha sido um respeitado samurai, todavia o pai não pôde seguir-lhe os passos. Os tempos estavam se tornando difíceis, encontrar um daimyo que pagasse um estipêndio era coisa rara para jovens espadachins. Ainda mais depois que conhecera sua mãe e esta engravidara. Precisava sustentar a nova família, e não poderia ficar muito tempo sem um ofício. Resolveu ir para o campo, e decidiu que não tinha mais honra para usar o nome paterno. Seus descendentes só poderiam voltar a usar o nome da família Nishimura quando voltassem a seguir o bushido, o caminho da espada. Enquanto fossem camponeses, atenderiam por Tosaka.
Por isso, enquanto esteve vivendo no campo, Iori acostumou-se a ser chamado de Iori Tosaka. No entanto a vontade de seguir os passos do avô samurai, e de assim ser um motivo de orgulho para seu próprio pai começou a falar mais alto quando ganhou a primeira espada de madeira. Andava de um lado para o outro com a espada às costas, disposto a desafiar qualquer um. Só que esta disposição começou a se tornar uma fonte de encrencas. Por várias vezes envolveu-se em brigas, e teve seu nome ligado com uma turma de jovens desajustados e marginalizados.
O
Justamente naquela semana houve um acontecimento mais grave. Iori fora apanhado numa séria briga que havia resultado no ferimento de dois rapazes. A revolta da população com os jovens baderneiros estava chegando ao limite, e resolveram amarrar Iori num local público do pequeno povoado para servir de exemplo e de punição. O desespero de sua família chegou ao auge, e então Kakua resolveu agir. Dirigiu-se até o local onde o jovem havia sido amarrado, e encontrou uma pequena multidão furiosa. O pai do rapaz defendia-o empunhando uma espada, não deixando ninguém se aproximar.

- Mas o que este jovem fez de tão grave para merecer esta punição toda? - gritou Kakua, silenciando a turba. Não vêem que ele precisa de orientação ao invés de punição?

Algumas vozes levantaram-se nervosas, mas aos poucos foram se acalmando, até restar apenas um longo silêncio.

- Prestem atenção à
  novo discípulo. Conversavam pouco, pois o jovem não se mostrava muito disposto a falar. De início, sentiu ódio daquele monge que o havia tirado da família, no entanto com o passar dos dias começou a se sentir confortável com a presença de Kakua, mesmo apesar de todo o silêncio. mais responsabilidade para ver como lidará com ela.
Aos poucos, alguns murmúrios de aprovação ao monge começaram a ser ouvidos. Restava saber o que o pai de Iori diria. Neste momento, ele levantou a espada, pedindo a palavra.

- Não me resta muita escolha. Entrego o destino de meu filho ao monge Kakua. Que ele consiga dar um rumo à vida dele que eu não consegui. E que volte um dia orgulhoso de seus feitos e podendo andar de cabeça erguida entre nós.
Dito isso, pôde-se perceber a satisfação dos presentes com a solução que se apresentava. O único que não parecia nada feliz com a novidade era o próprio Iori. Não tinha coragem de contestar a decisão do pai, ainda mais publicamente. Porém sua expressão não deixava dúvidas. Lágrimas rolaram-lhe do rosto no momento em que viu o pai indo embora sem olhar para trás, dispersando-se no meio da multidão de desconhecidos.
Kakua imediatamente pegou a estrada acompanhado do
Um dia, enquanto visitavam um templo, Kakua decidiu que aquele era um bom local para deixar Iori. Falou-lhe que precisava ir à China estudar uma nova disciplina por alguns anos, e seria melhor que Iori continuasse no Japão. Chamou o monge mais graduado do templo e expôs-lhe a situação. Combinaram que Iori não sairia dos limites do mosteiro enquanto não tivesse lido todos os livros sobre poesia, história, arte e religião que encontrasse lá dentro. Esta estadia seria a primeira etapa de sua formação, e caso ele resolvesse escolher qualquer outro rumo na vida, a base já estaria pronta. Combinaram isso, e Kakua despediu-se do jovem Iori dizendo que muito provavelmente seus caminhos ainda se cruzariam novamente, mas em outras circunstâncias. Iori novamente odiou o monge, por achar que estava traindo a palavra que dera a seu pai, e por estar deixando-o dentro de um templo, enquanto ele gostaria de entrar para uma academia de esgrima e de treinar para se tornar um samurai e resgatar o nome da família.
Um dia, após três anos de estudos no templo, Iori foi chamado à presença do monge com quem Kakua havia combinado os termos de sua reclusão. Há muito esta reclusão deixara de ser indesejada por parte de Iori, que ultimamente vinha sentindo um prazer imenso em estar ali, estudando tantas coisas interessantes nos livros. Seu espírito finalmente parecia estar se acalmando, criando novas demandas que ele próprio jamais imaginara. O monge, porém, trouxe uma notícia perturbadora.

- Iori, recebi a notícia de que seu pai não está bem de saúde. Portanto, a partir de agora considere-se livre para fazer o que quiser. Se preferir continuar no templo estudando, será muito bem recebido como foi até hoje, mas se quiser (quiser) ir encontrar-se com seu pai e dar-lhe algum conforto, não o impedirei. Acho que o propósito de Kakua já foi cumprido, sua estadia entre nós me parece que foi muito bem aproveitada. Está na hora de dar a você
  pai remoía-se de culpa por tê-lo entregue ao monge. No entanto, a sensação de todos era que a partir de agora tudo ficaria bem, e com Iori podendo ajudar nas pesadas tarefas rurais, a saúde do pai seria mais rapidamente restabelecida. templo pedindo abrigo e nunca se sentira assim antes. Mais uma vez, a reação dela foi levar as mãos ao rosto e sair depressa de perto daquele jovem sem emitir mais uma palavra. conseguido com tanta facilidade. ali era muito aguardada. Por sorte, o imperador se encontrava no Palácio, e poderia recebê-lo na manhã seguinte, depois do desjejum, quando poderiam conversar tranqüilamente. Kakua agradeceu a acolhida, e mostrou-se satisfeito com tais determinações, pois assim teria tempo de livrar-se da poeira da estrada e descansar um pouco antes do encontro. ainda estava em algum lugar do templo lá atrás. Sabia o porquê disso, no entanto preferia não pensar muito a esse respeito, e talvez um dia o destino o colocasse de novo nesta situação. Mas no momento, o melhor era concentrar-se em sua tarefa e, através dela, tirar as lições mais proveitosas para seguir seu próprio caminho. Deu um suspiro de resignação, balançou os ombros, e seguiu em frente.
Iori não teve dúvidas. Aprontou imediatamente uma pequena sacola com alguns mantimentos, pegou uma velha espada de madeira no templo e partiu de volta à terra natal. Após tanto tempo, veria de novo a família... Será que o receberiam bem?
Ao chegar em casa foi recebido com muita alegria. Todos ansiavam por seu retorno há muito tempo, e o
Tudo transcorria normalmente: Iori mostrava que aprendera a controlar seu espírito mais selvagem trabalhando nas tarefas de casa e freqüentando o templo sempre que podia. Mostrava perante a comunidade um autocontrole insuspeito para quem o conhecera adolescente. Além disso, a saúde do pai dava sensíveis sinais de melhora. Até que um dia um mensageiro trouxe uma correspondência para a família Tosaka. Viera da China, e era assinada por Kakua. Este dizia que retornaria em breve ao Japão, e provavelmente se instalaria por uns tempos no templo Enriaku-ji, localizado no monte Hiei. Gostaria de rever o jovem Iori.
A esta altura, o pai de Iori já havia se recuperado. Então, disse-lhe que era necessário que fosse visitar Kakua para transmitir-lhe os agradecimentos da família por ter interferido de forma tão positiva em sua educação. Iori concordou com o pai, e mais uma vez começou a preparar-se para a longa viagem que teria pela frente. Estavam no final do verão, e seria melhor programar-se para chegar lá antes do inverno.
 
 
- Você está se sentindo bem, Iori-sama?, perguntou Yumi, agachada bem à frente do rosto de Iori e franzindo a testa em evidente sinal de preocupação.
- Ah, desculpe-me; não a tinha visto.
- Já o havia chamado duas vezes antes desta. Trouxe-lhe um chá quente. Tome, antes que esfrie.

Mais uma vez entreolharam-se. Um longo silêncio aconteceu. Yumi sentiu a face ruborizar, as bochechas pegarem fogo. Não entendia muito bem por quê isto estava acontecendo com ela, já que estava acostumada a cuidar de viajantes que chegavam ao
Como o inverno estava mais rigoroso naquele ano, Iori não pôde partir rapidamente. E apesar de ansiar encontrar-se de novo com mestre Kakua, sentia prazer em permanecer ali. Desde que passara por aquele longo período estudando no templo enquanto Kakua estava na China, sentia-se bem neles; e agora essa sensação era ainda maior, amplificada pela presença tímida de Yumi. O cuidado que tinha com ele, Iori, as bochechas que ruborizavam de um instante para o outro, e os silêncios quando se olhavam olho no olho. Silêncios significativos, densos. Tudo isso o convencia a ficar um pouco mais toda vez que pensava em ir embora e olhava pela janela apenas para certificar-se que uma nova nevasca estava se aproximando.
 
***

Da estrada já podiam ver a capital ao longe. O aglomerado de construções novas, o tráfego maior de pessoas, tudo indicava que a viagem estava chegando ao fim. Hisashi e Sayako estavam tristes por terem que se separar de Kakua, o estranho monge que conheceram durante a viagem e que passara a os acompanhar e divertir com a flauta e perguntas aparentemente sem sentido.
Ao entrarem na cidade, resolveram parar numa estalagem para, enfim, comer uma refeição completa. Enquanto esperavam os bolinhos de arroz e o cozido de peixe e legumes que o senhor lhes garantira ser o melhor da cidade, Hisashi foi procurar informações sobre o mestre de caligrafia. Voltou rapidamente, surpreso e satisfeito por tê-las
Após a refeição, devorada com enorme apetite pelos três e dividida com o simpático e magro vira-latas que ficara rondando a mesa, Kakua levantou-se e disse que a partir dali se separariam. Suas jornadas tomariam rumos diferentes, mas que, em breve, poderiam tornar a se encontrar caso outros assuntos não o atrasassem mais do que o necessário. Pediu-lhes que enviassem as mais efusivas saudações ao mestre Moka, e que talvez eles tornassem a se ver em breve. Ao terminar a última frase, fez uma longa reverência, virou-se, e foi andando para fora do estabelecimento sem olhar para trás.
Os anos passados em meditação dentro dos templos e em contato com a natureza faziam Kakua sentir-se estranho naquele ambiente tão urbano. A velocidade das pessoas era exagerada, pareciam não se dar conta de que estavam perdendo um tempo precioso de suas vidas com preocupações inúteis. Todos pareciam olhar para dentro de si mesmos, cegos ao ambiente e incapazes de se deslumbrar com o espetáculo e a benção de simplesmente poderem respirar e sentirem-se vivos. Tudo isso fazia Kakua ansiar por cumprir a missão que viera realizar.
Queria solicitar logo a audiência ao imperador e poder ir embora dali. Talvez visitasse velhos amigos depois, se sobrasse tempo. Por isso, dirigiu-se diretamente ao palácio imperial, disposto a livrar-se daquilo o mais rapidamente possível.
Ao chegar ao palácio e se anunciar, foi recebido por um jovem assessor do imperador. Este parecia feliz em recebê-lo, e disse que presença dele
A manhã seguinte encontrou Kakua de pé. Fora providenciada uma farta refeição para o monge - que, no entanto, aceitara apenas a xícara de chá. Logo em seguida estava sendo guiado por um ansioso assessor imperial através dos salões do palácio, para o local onde o imperador o aguardava.
Enfim, o momento chegara. Além do imperador, outras pessoas aguardavam Kakua sem disfarçar a ansiedade em torno daquele encontro. Foram feitas as apresentações, e logo em seguida o imperador tomou a palavra para si:

- Mestre Kakua, as notícias de tua viagem pela China, onde foste estudar uma nova disciplina conhecida por Zen, chegaram até mim. Fui informado também que tu és o primeiro monge japonês que adquiriu tais ensinamentos. Portanto, a natureza de meu pedido para que viesses para esta audiência é falar-nos do que aprendeste nestes anos de estudo no exterior. Diz-nos, Mestre Kakua, o que vem a ser o Zen?

Neste momento, todos os olhos voltaram-se na direção de Kakua. Este deu um passo à frente, abriu um largo sorriso e fez uma longa reverência.
***

Realmente, o inverno fora rigoroso. Iori acabou ficando mais tempo no mosteiro do monte Hiei do que imaginara. Chegara lá no início da estação, e só agora, com a chegada da primavera, estava retornando à estrada para tentar encontrar o monge Kakua. Esperava ter notícias dele na capital, se fosse obrigado iria até mesmo ao palácio imperial para saber sobre o paradeiro do monge.
Ia caminhando com o olhar fixo adiante, a mente, todavia,
Após vários dias caminhando, chegara à cidade. A primeira providência foi procurar uma estalagem onde pudesse se recompor da viagem com um banho e uma refeição. Como era tarde, resolveu descansar à noite, para no dia seguinte ir ao Palácio procurar por Kakua. Com sorte, talvez ainda estivesse lá gozando da hospitalidade do imperador.
Ao chegar no palácio, apresentou-se e perguntou por Kakua. Sentiu uma ponta de esperança quando o levaram até um aposento e pediram que aguardasse. A ansiedade começou a tomar conta de si quando um assessor do imperador apareceu.

- Você é o jovem que procura por Kakua?
- Sim, sou Iori, da família Nishimura.
- Iori, nós também gostaríamos de saber do paradeiro dele. Esteve aqui no final do outono para uma audiência com o imperador com o objetivo de esclarecer detalhes a respeito da disciplina que estudara na China, o zen. Quando foi argüido, Kakua simplesmente fez uma reverência, retirou uma flauta das dobras do quimono, soprou uma única nota e retirou-se. Não o vimos mais depois disso.

Iori não sabia direito o que fazer. Ao sair do palácio, parou e olhou para os caminhos à sua frente. Para onde seguira Kakua? Não retornara para o templo do monte Hiei, é certo, pois ele próprio passara o inverno inteiro lá. Talvez tivesse tomado um novo rumo inesperado. Respirou fundo, e deu o primeiro passo. Nunca se sentira tão livre como naquele momento.


Já é primavera -
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã
Bashô


Cozido de nabos
e peixe recende à mesa.
Os olhos do cão rogam.



Folhagem de outono.
Quanto amarelo e vermelho
cabe numa tarde!


sara fazib
 
 
No monte, o templo
envolto em cobertor
de neve azulada.